31/10/2005

Crônica Aleatória: "Na Ponta da Faca"

- Você está certa que é esse aí?
- HuM-hUm, - respondeu a garota de cabelos multi-coloridos - EsSe MeSmO.

Sonho não costumava confiar no juízo inexistente de sua irmã, mas aparentemente havia algo que Delírio conseguia enxergar naquele homem, que mesmo aos olhos do grande Lorde Morpheus era completamente invisível. A aparência era de um jovem adulto, com seus vinte e poucos anos de idade, mas o corpo jazia inerte no chão frio da sala escura. Em seu braço esquerdo havia um cordão de tênis semi-amarrado, e uma seringa vazia pendia de sua mão direita. Tinha todos os sinais de uma pessoa com a mente presa ao Sonhar, mas ao mesmo tempo o cheio de podridão que predominava no recinto indicava que sua irmã Morte já deveria ter buscado o rapaz há alguns dias.

- Você não poderia estar mantendo este mortal vivo. Este poder não te pertence.
- E eU nÃo EsToU, sOnHo! PaReCe QuE eLe FeZ iSsO sOzInHo...

O imponente Lorde ajoelhou-se ao lado do corpo, e pousando uma das suas mãos tentou perscrutar a mente do rapaz, mas não conseguiu ver nada. A frustração deixou marcas visíveis de cólera no rosto de Sonho. Aparentemente, a mente deste jovem conseguira de alguma forma invadir seu reino, o Sonhar. Estava obviamente protegido com poderes de Delírio, mas ela não era capaz de entender como isso teria acontecido, debaixo do seu nariz.

- Vamos resolver isso no Sonhar. Venha - e na fração de tempo que um átomo de hidrogênio parte-se no coração de uma estrela, ambos se viram caminhando num deserto de areia fina e branca, que ao longe tornava-se vermelha como sangue. A areia rubra formava um círculo em torno de um ponto luminoso, que brilhava com uma miríade de cores sem fim, e numa velocidade que seria capaz de erguer mil ciclones.

- Aquele é o centro de todo o problema, Irmã. A mente do mortal está presa ao Sonhar, e corrompendo a areia de sonhos da qual o meu reino é composto. Se isso continuar, tudo será destruído, você entende?
- mAs Eu NãO fIz NaDa, SoNhO! ElE vEiO aQuI sOzInHo, NãO o AjUdEi.
- Entretanto, apenas você tem o poder de desfazer sua presença no meu reino. Por favor, vá lá e descubra o que está acontecendo.

Choramingando e tremendo de medo, lentamente Delírio se aproximou do centro brilhante, até desaparecer em meio à intensa luminosidade. Instantes depois, a luz morreu, e com ela a areia gradualmente voltou a ser branca. Delírio retornou com um pesado elmo de desenho ancestral em suas mãos, o que deixou Lorde Morpheus extremamente alarmado.

- Meu símbolo. O que foi que você fez, Irmã?
- eU sAbIa QuE tInHa DeIxAdO eLe Em AlGuM lUgAr.
- Você ajudou aquele mortal a usar meu símbolo?
- EuUuUu? NãO, cLaRo QuE nÃo, NeM eM "sOnHoS" - a piadinha teria feito Delírio gargalhar sozinha, mas o rosto sisudo do irmão mais velho dizia-lhe que era melhor comportar-se agora.
- Quando foi a última vez que você se lembra se estar com o elmo?
- fOi AnTeS dO bArNaBáS mE tIrAr DaQuElE lUgAr EsTrAnHo E eScUrO oNdE eU qUaSe EnDoIdEi.
- Já imagino o que deve ter acontecido. Volte para o lugar onde o rapaz se encontrava... Morte gostaria de ouvir algumas explicações sobre o que aconteceu. E ele estava sob sua responsabilidade, de uma forma ou de outra.
- Tá BoM... e VoCê, VaI aOnDe?
- Fazer uma visita.

***

Uma solitária figura andrógina caminhava calmamente em sua sala. Entediada, buscava algo que fosse capaz de satisfazer sua sede e esmorecer seu tédio.

- Satisfeito consigo mesmo, Irmão-Irmã?
- Ora ora, se não é Sonho?! Achei que você tinha dito que jamais retornaria aqui.
- Não imagine que sinto prazer em voltar ao Limite.
- Então não é apenas uma visita social?
- Você sabe porque estou aqui, Desejo.
- Ah, aquele pequeno embuste? Não foi uma pândega?
- Já te avisei para ficar longe dos meus negócios.
- Ora, seu senso de humor nunca foi dos melhores. Além diss...
- Chega. Acabou. Você está para sempre banido do meu reino, e sua influência sobre os meus está terminantemente encerrada.
- Você não pode fazer isso!
- Assim como você não podia permitir que um mortal usasse um dos símbolos.
- Ele apenas queria viver! Seu desejo era viver para sempre, e eu apenas entreguei as ferramentas, Irmão...
- Sob o risco de se meter nos assuntos da Morte e de destruir o Sonhar.
- Você não pode me banir dos sonhos dos mortais. Eles vivem, são carne, portanto sentem desejo!
- Desta forma você ficará mais fraco, e não poderá continuar com suas maliciosas tramóias, certo?
- Sonho, você não fará isso. Sonho, não vá embora!

O orgulhoso Lorde Onírico retornou para seu reino, onde pessoalmente encarcerou todos os sonhos que foram construídos com a chama do Desejo. Deste momento em diante, a humanidade perdeu uma boa parte do romantismo e calor que sempre alimentaram seu espírito inconscientemente, mas por mais alto que fosse o preço a se pagar, ele era absolutamente necessário. Posted by Picasa

21/10/2005

Sobre comida e relacionamentos

Entrei numa onda light. Diet, fat free, low carbs, e todos os outros termos em inglês que se possa usar para uma expressão brasileira bastante comum: está na hora de perder banha. Fui ao supermercado comparar informações nutricionais, preços e marcas. Acabei comprando bastante coisa. Ao invés de salame italiano, mortadela de frango. Ao invés de maionese, maionese sem gordura (e sem gosto). E para substituir as deliciosas macarronadas, pão light. Era só o que me faltava.

Pior ainda foi a tentação que sofri ao passar na seção de frios, quando um pacote de Copa ficou olhando pra minha cara e dizendo "me leva pra casa, garotão". Logo em seguida um belo pedaço de queijo gorgonzola parecia sussurar "me come, me joga na parede, em cima da pizza, me chama de muzzarela". Olhei para o queijo com bastante carinho e afeto, porém quem acabou na minha mão foi o insosso queijo minas. Light.

Chegando em casa, decidi que o primeiro passo seria guardar os "alimentos" (note-se as aspas) na geladeira. Seria uma hora difícil, mas não dava pra adiar. Abro a porta e lá está ele, meu companheiro de casa, amigo, confessor das horas noturnas avançadas e a única criatura viva com quem aceito de bom grado compartilhar o que chamo de "lar". De todos os solitários no mundo, apenas ele, em sua estranha aparência, seria capaz de me entender:

Um queijo Parmesão que virou Roquefort.

- Olá queijo.
- Buon giorno, signori!
- Já te disse para abandonar esse sotaque italiano...
- Desculpe monsieur, às vezes esqueço que virei Roquefort.
- Maravilhoso o processo de transformação ao qual um queijo pode passar, não?
- Você parece nervoso, mon amie. Aconteceu algo?
- Hum... Não sei como vou te contar isso.
- Apenas fale, mon amie. Pode desabafar.
- Estou de dieta.
- Non...
- Sim. E estes aqui serão seus novos colegas de quarto. Conheça a Maionese Light, a Margarina Light, a Mortadela Light, o Hamburguer Light, o Refrigerante Light...
- Espere, espere... Eles são todos da mesma família? Pois tem o mesmo sobrenome!
- Não... Isso significa que eles tem poucas calorias, e menos gordura.
- Mas comida que não engorda não é divertida!
- Eu sei.
- Com quem vou conversar, me divertir quando você estiver trabalhando, monsieur?
- Eu trouxe sua prima, Ricota.
- Ricota? Mas ela não tem graça nenhuma, é uma chata! Qualquer um enjoaria dela em questão de minutos!
- Sim, isso é verdade.
- Por acaso você me consultou antes de fazer isso?
- Mas é preciso, Roquefort. Minha namorada já está reclamando.
- "Aquelazinha"? Você não precisa dela, eu já estou em sua vida!
- Sinto muito... Acho que é o fim para nós dois.
- O que você está fazendo? Vai me jogar na lixeira, acha que é fácil assim terminar um relacionamento?
- Desculpe, se você não é capaz de me compreender, já não há mais espaço pra você na minha vida...
- O lixo não, o lixo não!!!...

É difícil dormir com um peso tão grande no coração. Amizades vem e vão, mas as pessoas não deveriam confundir tanto as coisas. Adeus Parmesão-Roquefort... Adeus, meu bom amigo. Posted by Picasa

13/10/2005

Amigos fazem "isso" contigo

Quando você menos espera, eles atacam. Te pegam desprevenido, com a guarda baixa. O mais impressionante é que você gosta, e deixa que eles façam isso não apenas uma, mas várias vezes.

A Freedom 90 foi simplesmente a melhor festa estreiante que já apareceu em terras cariocas. Não digo isso pois fui um dos DJs, mas pois é um fato, e quem foi lá pôde perceber o que estou falando. Ótimas discotecagens, ambiente nota dez, um super-telão e inovações com video-clipes de artistas sendo lançados na telona, com o som original do DVD! Algumas pessoas vão dizer que esta não foi a primeira festa "anos 90" do Brasil, que outras festas já fizeram incursões nessa área. Para essas pessoas eu tenho apenas uma palavra:

Balela.

A Freedom 90 foi a primeira a ousar, a resgatar o clima da década na qual vivi o final da infância, minha adolescência e o começo da vida adulta. Nos anos 90 tive praticamente todas as minhas primeiras vezes, e a festa resgatou muitos sentimentos bons, aqueles guardados com um calorzinho gostoso dentro do peito, e que às vezes teimam em sair.

Eu posso me considerar um afortunado, pois além de tudo, ainda recebi uma homenagem maravilhosa dos meus amigos, com direito a video de imagens no telão, torta de chocolate, cartaz e trilha sonora do Faith no More. Foi bom demais, muito especial, e guardarei para sempre tudo o que aconteceu lá no meu coração.

E ainda teve espaço para mais uma primeira vez, pois eu nunca chorei em público, e muito menos em cima de um palco, com quase trezentas pessoas me olhando. Lágrimas nos olhos, felicidade total. Amigos fazem "isso" contigo, quando você menos espera. Posted by Picasa

12/10/2005

A trilha sonora é "Friends", do Joe Satriani

Esta mensagem vai para todas as pessoas da minha pequena notável lista de discussão, que estiveram ou não estiveram ontem na Freedom 90, e com a adição de outra pessoa muito especial que participou ativamente da conspiração.

Não importa o status (online, away, busy, sleeping, at work, in SP, etc) das pessoas no preciso momento: ontem o meu amor por todos vocês foi fortificado. Não sei quem ganhou a aposta, espero que tenha rolado algum dinheiro, pois eu chorei pra caramba, e continuei chorando em casa, quando peguei o DVD e vi novamente às 7:30 hrs da manhã.

Pode parecer diplomacia, mas não meço palavras quando digo que foi a mais grata surpresa que já tive ao longo dos meus 27 anos de vida. Estou passando por uma fase complicada profissionalmente, a nível de estresse e condições de trabalho, e receber aquela homenagem me deu um gás para derrubar todos os problemas, uma carga absurda de energia. Hoje estou mais forte e me sinto mais vivo, graças a vocês.

A Freedom 90 sintetiza perfeitamente meu aniversário - uma ótima festa, mostrou que com boas idéias, conhecimento e perserverança tudo é possível. E, acima de tudo, que quando você está cercado de amigos verdadeiros, nada pode dar errado.

Thank you, danke schön, merci beaucoup, gracias, domo arigato. Obrigado, obrigado, muito obrigado.

04/10/2005

Merda acontece... no Google Talk também!

Fulano: tem alguma mulher aí pra me passar ?

Bart: ??????????????

Fulano: alguma mulher pra eu add aki !

Bart: adicionar aonde???

Fulano: aki no google talk

Bart: aaaahhhhhh não tem quase ninguém na minha lista

Fulano: passa uma mulher

Bart: não tem ninguém
tem algumas amigas minhas, todas compromissadas (como vc e eu), que ficariam boladas se eu fizesse isso

Fulano: aí é foda !

Bart: vem cá, quem é que está falando?

Fulano: Fulano pq ?

Bart: que só por curiosidade, é casado com quem?

Fulano: pra que o interrogatorio ?

Bart: por nada, mas o Fulano é casado com quem?

Fulano: com tua mãe seu viado !!

Bart: então presumo que você não seja o Fulano e que vc esteja usando o mesmo computador na faculdade que ele acabou de usar antes de ir para casa

Fulano: lógico !

Bart: e, apenas por acaso, está usando o GTalk dele, o que é algo muito escroto a se fazer, vc deveria dar logoff

Fulano: ele foi otario de deixar aki ...pensei q tinha alguma mule. mas to vendo q soh tem um viado !!!

Bart: na Faculdade sim. se quiser passo aí daqui a pouco pra te dar uns tapas, e te denunciar pra diretoria da faculdade por mau uso dos computadores do laboratório.

Fulano: hahahahahaahhaah ...comedião mermo !

Bart: vc escolhe. ou fecha ou programa... ou sofre as consequências. vou contar até 10, antes de ligar pro laboratório de informática. e estou com o telefone na mão.
10

Fulano: vai tomar no cu seu arrombadp !

Bart: 9
8
7
6
5
4
3
2
1

Fulano: alô

Bart: aguarde alguns instantes, por favor

Fulano: ta bom
alguem jah atendeu ??naum eskece de falar tudo
kd viadinho ? ninguem chego aki naum !

Bart: estou no telefone, seja educado e espere

Fulano: por favor ...
quer minha matricula ?
ta muito lerdo ! ninguem atende to ouvindo daki !

Bart: vc está vendo um rapaz loiro entrando na sala?
já saiu?

fulanodetal@gmail.com is offline and can't receive messages right now.

29/09/2005

Sobre o referendo...

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que jamais pretendo manter em casa, portar ou adquirir armas de fogo. Talvez uma espingarda de chumbinho, mas nada letal. Em breve pretendo ter em mãos meu arco-e-flecha, mas se algum dia sair com ele armado no meio da rua, peço que algum conhecido ligue para o manicômio antes que outra pessoa o faça. Prefiro ser detido pelos meus amigos do que por um qualquer.

Em segundo lugar, vem a constituição. Ela garante a todo cidadão brasileiro o direito a se defender, com todos os meios que forem necessários. Armas de fogo? Talvez. Um flecha de aço-carbono no meio do peito de alguém que tente invadir minha casa? É possível. Machetada certeira no crânio feita com uma cimitarra adquirida na rua da Carioca? Também provável. Assim como existem várias ameças à nossa segurança, existem diversas formas de defesa. Mas a primeira e mais importante de toda é lutarmos pelos nossos direitos.

Esse plebiscito foi agendado para ratificar a demagogia do governo federal. Essa campanha pelo desarmamento não diminuiu a violência em parte alguma - por acaso os tiroteios nos morros acabaram? Os assaltos no trânsito também? Só esse ano o carro de uma amiga minha foi arrombado duas vezes, sem contar o caso de outro amigo, que foi vítima de um assalto à mão armada, em frente à sua casa. Para ser sincero, no momento que escrevia este texto podia ouvir um tiroteio perto de casa - não o suficiente para os tiros chegarem no prédio das minhas irmãs.

A campanha do desarmamento é muito bonita, porém ineficaz. O governo só marcou o plebiscito para que, caso a população vote pelo sim, ter mais uma bela propaganda para exibir no ano eleitoral de 2006. Só que o Roberton Jefferson atrapalhou os planos de todos, com um escândalo (na minha opinião sem precedentes) horrível que nos faz sentir ânsias de vômito todos os dias. Agora o referendo servirá para outro propósito: desviar a atenção pública do lamaçal em Brasília!

Lembrem-se: toda vez que um grande escândalo político abala o país, o número de jogos de futebol na televisão aumenta, e se nem isso funciona, aparece alguma denúncia de corrupção na oitava arte brasileira: um dirigente sujo, jogadores tomando doping, clubes dando calote, combinação de resultados. Desta vez eles conseguiram algo inédito: provar que um juiz é ladrão! Sem precedentes, igualmente!

E de repente, os 57 mil reais que o árbitro paulista engrupiu são mais importantes que os 30 mil mensais que os deputados recebiam. O congresso tem centenas de deputados, e apenas algumas dezenas recebiam mensalão? Será que essas poucas dezenas eram capazes de mudar o rumo das votações importantes?

Será que o Eurico Miranda sabia que o pênalti que o Romário converteu foi cavado?

O Brasil será hexacampeão?

E quem será o presidente do Brasil em 2007?

Nada disso importa quando você descobre que a demagogia do governo federal está custando aos cofres públicos algo em torno de 250 milhões de reais. Com todos os zeros: R$ 250.000.000,00.

É grana pra cacete!

É dinheiro que poderia ser investido em políticas de segurança pública mais eficazes. Ou então, direcionado para a educação, reformando escolas por todo o país. Quem sabe, aplicado na cultura, com projetos mais sérios do que simplesmente exibir um ministro-menestrel com uma viola na mão e cantando músicas do Bob Marley.

Psiu. Talvez o governo esteja querendo isso mesmo. Dêem Bob para eles, e tudo ficará numa boa bicho. Sem grilo e na paz.

Mas nós acabamos ficando com Bob Jefferson mesmo. E o quarto de bilhão que o governo está gastando nesta brincadeira poderia ser usado para fundar uma corregedoria especial na polícia federal que investigasse e combatesse a corrupção pública. Todos sabemos que o primeiro passo para se livrar de um vício é admitir que ele existe.

Enquanto o governo, seja ele do PT, do PSDB, PFL ou PRONA, não admitir publicamente que a corrupção está entranhada na prática política deste país, ela perseverará.

Meu voto é não. Enquanto nós tivermos essa malévola patota no congresso, meu voto é não. Enquanto não tivermos representantes dignos o suficiente para mudar uma constituição federal, meu voto é não. E quando a maior política de segurança pública do país não for uma campanha de desarmamento dos cidadãos, e sim de desarmar os bandidos, eu votarei sim.

E em breve prepararei um banner em português, inglês e francês, pela minha nova campanha: pedindo observadores da ONU nas eleições de 2006 em território brasileiro. Isso já deveria ter sido feito há tempos, e não apenas aqui.

23/09/2005

Crônica aleatória: "Carta para Monica"

Querida Monica,

Olá querida está tudo bem por aí? Aqui está tudo indo muito bem... Aos poucos as coisas vão se acertando, sabe? No início sempre é um choque, mas você se acostuma com o tempo - novos rostos, novas experiências!

Sempre me questionei sobre os detalhes que constituem nossas vidas. Pequenos, ínfimos, tão diminutos que poderiam passar desapercebidos diante dos olhos de qualquer pessoa. Mas é justamente a capacidade de perceber essas sutilezas que nos diferenciam da grande massa que se acostuma com a normalidade. Pequenas pistas, que deixadas pelo caminho para qualquer um capturar, são sempre ignoradas. Isso me dá nos nervos.

De que adianta nossa passagem neste mundo, se não fizermos algo de construtivo e útil? Se não deixarmos nossa marca? E suponha que, feita a marca, ninguém consiga enxergá-la? Horrível, não é verdade? Por isso os diminutos vestígios da vida são tão importantes - necessários, arriscaria.

Diametralmente oposto a esse pensamento, também acredito em segredos! Você consegue acreditar nisso? Que pândega, não? Mas uma coisa está diretamente ligada à outra - todo segredo que se preza deve deixar rastros, dicas sutis de que ele existe, para que seja um segredo completo, e atraia o interesse dos outros. Caso contrário, é apenas mais um fragmento de informação no mundo que flutua ao nosso redor.

Sabe quando você tem um segredo, e deseja desesperadamente compartilhar com outras pessoas? É assim que eu me sinto, e sempre! Para isso, obviamente, deixo minhas pequenas pistas - um sentimento, uma palavra, um gracejo. Nosso comportamento muitas vezes é capaz de trair os segredos com maior eficácia do que a lógica. Isso faz parte da natureza humana Monica, e não podemos escapar dessa inevitabilidade.

É por isso que não lhe direi onde enterrei o corpo da sua filha. Mas continuarei guardando seu lindo rostinho infantil em minha coleção, até que você consiga vir buscá-lo. Por favor, não me decepcione como os outros antes de você.

Carinhosamente,

X

16/09/2005

Epifanias, relatividade e o universo

Acabo de retornar do banheiro, e como todos sabemos bem, este é o lugar criado pelas mais poderosas forças do universo para as pessoas pensarem. E quando pensa-se demais, paf! Surgem epifanias - como a que acabei de ter.

Estava em frente ao espelho, lavando minhas mãos, e por qualquer motivo alheio à minha própria compreensão fiz uma careta, mostrando a língua. Então decidi estender mais ainda minha língua, no melhor estilo "Gene Simmons", da banda Kiss.

E foi aí que aconteceu. Paf!

Minha tentativa de imitar o músico veterano imediatamente remeteu-me a outra imagem. Aquela foto do Einstein mostrando a língua. Até aí, pode parecer mera coincidência, uma pose similar: línguas ao vento, espontaneidade pura. Mas era mais, muito mais do que simples demonstrações de irreverência e músculos.

Era a explicação definitiva de parte da teoria da relatividade.

E=MC², certo? Energia é igual à massa, aplicada à velocidade da luz ao quadrado, certo? Errado. Imagine um show do Kiss, com todo mundo pulando, de forma frenética durante duas horas. Isso gera um grande despendimento de energia. E os comandos são passados claramente pela banda, em suas letras:

...I wanna rock and roll all nite...
...I wanna hear it loud, right between the eyes...
...God gave rock and roll to you (...) put it in the soul of everyone...
...Get up, Everybody?s gonna move their feet... Get down, Everybody?s gonna leave their seat...

Qual é a mensagens dos músicos? Agite-se! Anime-se! Balance a cabeça até não poder mais! Mova-se, pule, cante, grite, esperneie, faça algo, mas gaste energia! Gaste muita energia, bastante, até não poder mais. O gasto desta energia toda é o que mantém o universo vivo, é o que permite que todas as moléculas se agitem, pois a energia que as abastece provém de outras fontes. Portanto, podemos afirmar toda a energia do universo é "reciclada", pois provém da matéria e vice-versa.

Obviamente, Gene Simmons e Paul Stanley são dois gênios, não apenas no campo musical, mas da física também, pois cerca de trinta eles perceberam a mensagem de Albert Einstein, e mantiveram viva a mensagem oculta do maior cérebro da história exibindo suas línguas por todo o mundo, e comandando grandes massas de pessoas para que agitassem seus corpos ao som de alguns dos clássicos mais empolgantes de toda a história do rock.

Posso concluir, portanto, que o rock é necessário para a existência do universo. Vamos continuar com o bom trabalho dos senhores Einstein, Simmons e Stanley. Que todos liguem seus aparelhos de som, ajustem o volume para o máximo, e cantem junto em alto e bom som: I wanna rock!

22/08/2005

Crônica Aleatória: "Praia"

Sabe aqueles dias nos quais você acorda com vontade que já fosse amanhã? Pois seja bem vindo à vida de Miguel. Da rotina às surpresas desagradáveis, nada mais era capaz de instigar o homem de meia-idade, farto de sua vida insossa e sem animosidades. A família era perfeita, apesar de distante. Não falava com os filhos há meses - os dois desnaturados foram estudar na Europa e nunca davam notícias. Com a esposa era pior. Apesar de dividirem o mesmo teto, ela era incapaz de pronunciar uma palavra de alento ao cansado homem, toda vez que chegava em casa. Preferia voltar-se às suas coisas pequenas, em seu minúsculo mundinho de vidro e porcelana pintada.

Pois estava Miguel de pé, esperando pelo metrô, como sempre fazia há anos. Vendo as mesmas pessoas, com pequenas nuances na multidão - um ou outro jovem universitário, algum idoso que nunca mais aparecia. Tinha memória visual fenomenal, o que permitia-lhe jamais esquecer o rosto de alguém. E um em particular agora chamava sua atenção: era uma atriz, muito bonita, e que provavelmente deveria estar fazendo sucesso em alguma novela que lhe era completamente desconhecida. Ela sorria sentada numa rede, banhando-se com o sol do Caribe. Abaixo, a convidativa frase: "Venha conhecer as maravilhas do Caribe".

É isso. Esse era o sinal. Decidiu sair dali, desabaladamente, para a primeira agência de viagens que pudesse encontrar. "Quebrar a rotina é bom", ele pensou. "Todos ficarão surpresos", emendou quando já podia sentir os cancerígenos raios de sol queimando sua pele seca e opaca. Sentado na praia, bebendo os drinks mais refinados e comendo os melhores manjares de todo o planeta. E daí que a esposa nunca mais o aceitaria de volta? Os filhos ficariam sem dinheiro para completar os estudos na Europa? Nada disso importava.

O importante, agora, era sentir a brisa do mar brincando com seus poucos fios de cabelo; a água do mar se deliciando em lavar os dedos, cansados após muitos anos de labuta incessante e sem sentido algum! Queria assimilar todos os elementos da natureza lavando seu corpo e alma, esmigalhados após anos de privações e humilhações cotidianas, fazendo com que se sentisse o rei do mundo, mestre de seu destino e dono da preciosa vida que habitava seu corpo!

Deixou seu corpo cair lentamente, ao som do vento cantando nas rochas; das aves gritando ao seu redor. Em poucos instantes, já não seria capaz de escutar mais nada, enquanto na estação do metrô as pessoas observaram horrorizadas os restos de seu corpo espalhados pelos trilhos.

04/08/2005

Crônica Aleatória: "Fique mais"

Toda vez que ele levantava a cabeça, via uma imensidão azul. E apenas isso. O calor já tinha superado o insuportável e era questão de horas para que desmaiasse e morresse por insolação. Conseguira sobreviver desde o naufrágio às custas de feijões enlatados e um galão de suco de laranja. Com certeza abrir as latas de feijão sem ferramentas apropriadas era difícil, mas alguns pinos de metal encontrados no bote de borracha o ajudaram neste tarefa.

Quando todas as esperanças já haviam abandonado o corpo do jovem náufrago, surgiu no horizonte uma sombra muito indistinta, aos poucos tomando forma, até revelar o impossível: uma ilha. Freneticamente, ele agitou os braços na água, tentando fazer o bote ganhar velocidade, a caminho de sua salvação. Com muito esforço, alcançou a margem, e aos soluços beijou a fina areia branca.

Com o coração embebido de alegria, decidiu puxar o bote junto com os poucos víveres que sobraram para a margem. "Tantas coisas a pensar, tantas coisas a iniciar", pensou distraído, quando uma voz infantil ressoou bem atrás dele: "sejam bem vindo, Daniel!". Aterrorizado, ele se virou para observar a interlocutora. Era uma jovem adolescente, com não mais do que dezesseis anos de idade. Ela se vestia de forma estranha, roupas tão coloridas e fora de tom quanto seu cabelo, que parecia ser pintado conter as mesmas nuances de um arco-íris. Apesar dos lábios ressecados pelo sol, dolorosamente ele disse: "Como você sabe o meu nome?"

A jovem revelou traços mistos de felicidade e estranheza por trás de sua colorida imagem. Ela respondeu com uma voz fina e que parecia oscilar no espaço entre eles: "Ué, VoCê É mEu! Eu SeI o NoMe De ToDoS qUe SãO mEuS!"

"Você está doida, menina?" respondeu Daniel, ainda atordoado pelo som de uma voz humana, que nos últimos dias havia se transformado em algo estranho e reconfortante. Porém agora menina parecia alarmada, gritando: "DOIDO? AoNdE? aI sOcOrRo FoGe!!!"

Ela pegou a mão do pobre desavisado e saiu correndo pela praia em direção à floresta. Daniel tentou resistiu, mas parecia inútil: o toque da mão da garota parecia empurrar seu corpo para a frente, dando-lhe energia para prosseguir, apesar de tudo o que já tinha passado nos últimos dias. Foi quando entraram desabalados pela floresta, que o homem se surpreendeu: via uma miríade de cores fantástica, algo que nunca pensara em ver jamais. As árvores carregavam frutos cor-de-rosa e sua flores emitiam uma luz verde-fluorescente. Os insetos brilhavam vermelhos, à sombra azul das árvores.

Em poucos instantes chegaram a uma clareira, onde convenientemente estava montada uma mesa de rocha com duas cadeiras feitas de troncos de árvores. A luz do sol brilhava cada vez mais lilás, realçando a beleza dos olhos da estranha garota: um verde e o outro azul. "SeNtE-sE, eE SaBiA qUe VoCê EsTaVa ViNdO, eNtÃo PrEpArEi Um PeQuEnO LaNcHiNho. EsPeRo QuE gOsTe De SoRvEtE dE pArAfUsOs!" E por algum motivo estranho, era o manjar mais saboroso que ele havia provado em toda sua vida.

Lá ficaram juntos, durante dois dias e duas noites, admirando a beleza da ilha em todos seus mistérios: todos os pequenos insetos com vinte pares de asas e os macacos gigantes, que vinham brincar e acabavam derrubando as árvores quando se penduravam nos galhos com suas caudas duplas. Ele pensava, e chegou até a dizer para sua amiga: "Eu gostaria de viver assim para sempre, sabe?" Mas quando disse isso, ela se retraiu, e triste disse: "IsSo Se MiNhA iRmà mAiS VeLhA nÃo AtRaPaLhAr...".

Foi logo após o pôr-do-sol que ela apareceu. Estavam os dois caminhando na praia, uma aposta para saber quem ficava mais tempo sem tocar em sequer um grão de areia, quando uma jovem mulher, vestida como um desses loucos góticos e com cabelos tão negros quando a escuridão que estava por vir apareceu. Parecia ter apenas vinte e poucos anos, mas ao mesmo tempo, seu pálido rosto transparecia uma idade tão ancestral quando o símbolo que carregava em seu peito, reluzia um Ankh egípcio.

Ela se aproximou com um amável sorriso no rosto. "Chegou a hora, irmãzinha", disse com uma voz calma e cheia de ternura, apenas para ouvir a resposta imediata: "NÃO, dEiXe eLe CoMiGo MaIs Um PoUcO!"

A bela jovem gótica com o Ankh não se comoveu nem um pouco. "Você sabe que não posso. É hora dele partir." Aos prantos, a misteriosa anfitriã saiu voando com asas invisíveis, até desaparecer no infinito.

Exibindo um amável sorriso no rosto, a soturna figura ergueu as mãos e com um movimento circular limpou a paisagem, revelando o céu limpo e o horizonte vazio. Realidade reconstruída, estavam os dois sozinhos no bote à deriva e Daniel tinha que ir embora.