31/12/2025

Redes Sociais, os Palcos da Solidão

Ontem voltei para casa após uma breve estadia de três dias num hotel de luxo, com atendimento personalizado no quarto e comida sendo servida na cama, também conhecido como "hospital". O motivo? Realmente não vem ao caso, mas está tudo bem comigo agora. 

Durante esses três dias de internação tive muito tempo livre e comecei a refletir sobre algo interessante, enquanto maratonava todos os episódios da série, agora clássica, Mr. Bean (trivia: só existem 14 episódios e mais um que é coletânea dos melhores esquetes): as redes sociais nos aproximam, ou apenas nos distanciam?

Já faz um tempo que reduzi imensamente o tempo que gasto em redes sociais. Cancelei completamente minhas contas no Facebook e Twitter (atual "X"), uso o Instagram de forma leve, esporádica e venho tentando usar o Reddit e Bluesky... E é "tentativa" mesmo, pois cada vez mais vejo as pessoas em redes sociais não terem nenhum interesse em usá-las para estabelecer e manter vínculos verdadeiros.

Todo mundo só quer aparecer e ser notado.

O resultado acaba sendo mais uma ou duas redes que vou abandonar em breve por um motivo muito simples; eu gosto de manter contato com pessoas. Saber como meus amigos e amigas estão. Por onde andam. O quê fazem. Se estão bem. Mas de quê adianta se a maioria avassaladora só está usando redes sociais como uma forma de câmara de eco para suas próprias vozes e imagens, sem nenhum interesse em estabelecer uma relação verdadeira?

Até não muito tempo atrás era comum você fazer novos contatos, conhecer pessoas e criar boas memórias usando redes sociais. Eu mesmo tenho lembranças muito felizes e legais de pessoas que "conheci" desta forma e acabaram virando amizades reais na vida fora das telas de computadores e celulares, mas em pouquíssimo tempo as redes sociais parecem ter involuído para espaços que só servem para massagear egos frágeis ou nos enfiar propaganda goela abaixo.

O mais curioso é que essa reflexão me fez lembrar de alguns dos meus amigos da época da escola, pessoas muito queridas, mas que nunca consegui "achar" em "lugar nenhum", até que em 2024 numa reunião da antiga turma, eles estavam lá e para minha surpresa, não tem redes sociais até hoje. Me reconectar com essas pessoas, seres humanos "de verdade", que compartilham experiências, vivências, que tiveram décadas de vidas ricas e cheias de histórias, tem sido um prazer incrível. Pois para minha felicidade, são pessoas boas e genuinamente legais, isso não mudou em quase trinta anos.

Então por quê nós deveríamos mudar quem nós somos para nos adaptar às redes sociais? Para aparecer mais? Ter um número maior de seguidores? Muito se fala sobre o vício em dopamina causado pelo uso das redes sociais (e dos celulares por extensão), mas gostaria de ir além, não acho que seja apenas sobre isso. É sobre a construção de uma sociedade ególatra, narcisista, que coloca a atenção fugaz e fama de minutos num pedestal acima de relacionamentos reais e autênticos.

Há quase 14 anos eu escrevi sobre isso, mas com foco no Facebook, inclusive é um dos textos mais lidos do meu blog. Disse que não ia apagar minha conta e perfil, que não ia bloquear ninguém, acabou que fiz exatamente isso tudo ao longo de diversos momentos. Mas hoje sou uma pessoa absurdamente diferente, gosto de pensar que aprendi com uma miríade de erros que cometi e também com as porradas e decepções que este tempo todo me trouxe. Mas relendo meu texto antigo, percebi um trecho interessante:

O facebook está deixando as pessoas mais corajosas, desinibindo-as para falarem sobre o que quiserem. Aí vemos comentários preconceituosos, racistas, sexistas, fascistas, etc.

Que coisa, não. Será que vamos aprender algum dia? Não existe número de visualizações, curtidas e interações que justifique a venda de nossas almas e personalidades para um algoritmo, sem nenhuma contrapartida de pagamento além de uma dose rápida e barata de dopamina, e nos larga numa "terra de ninguém" semeada com ódio e incompreensão por todos os lados.

Talvez quem estivesse certo fosse o palhaço tôlo, ignóbil, ingênuo, porém feliz em sua solidão e mundinho interno, chamado Mr. Bean.

Feliz 2026 para todo mundo. Espero e torço por isso.

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