22.2.12

Por quê não gosto mais do facebook

Como disse ontem, causando certo horror, apreensão e preocupação, estou de saco cheio do facebook. Na verdade, estou de saco cheio de um monte de coisas, mas não consigo me livrar de todas com facilidade. Antes que venham me perguntar, não, eu não pretendo fazer "facebookcídio", como há alguns anos atrás era comuns as pessoas dizerem que fizeram "orkutcídio". Isso é estúpido, primeiro porque caso sua intenção seja manter a privacidade dos seus dados, já os perdeu - o facebook e a Google guardam todos os dados de quem se inscreve nos seus sites e programas. Em segundo lugar, se a sua intenção ao apagar um perfil em rede social é evitar que as pessoas "fuxiquem" sua vida, bem, tenho novidades para você - as pessoas só buscam saber o que você mesmo compartilha com elas. Se você ficar quietinho, caladinho no seu canto, ninguém vai ficar sabendo.

O facebook é uma rede social, na qual você mantém contato com seus amigos e conhecidos. Oh, nenhuma novidade. Até agora, é só mais uma rede social - não tenho nada contra este princípio, o problema é que o facebook tende a criar uma "rede dentro da rede", um novo ambiente no qual a sua participação, as suas idéias, a sua presença, os seus dados pessoais e profissionais, são a verdadeira moeda. Anotem o que estou falando, daqui a pouco o tal do "facebookmail" (que ainda não colou) será transformado em pré-requisito para usar alguma funcionalidade nova do site, sendo integrado ao chat online. Uau, que novidade, não?! Quem tiver o mínimo de visão lembrará que o e-mail da Google é integrado ao chat online da Google que são integrados a qualquer programa ou site da Google. O velho e bom combo do Gmail + Gtalk, na estrada desde o quê, 2005? 2006?

Não lembro direito, pois parece que foi há uma eternidade. Seis ou sete anos. E o que nós fizemos neste tempo todo? O quanto construímos? De lá para cá eu me mudei de cidade, casei, troquei de emprego, aconteceu muita coisa na minha vida. Entretanto olhando para trás, nenhuma, absolutamente nenhuma dessas coisas boas tiveram o "dedo mágico" de uma rede social, seja o orkut, o facebook, etc etc. Aliás, pelo contrário, a rede maravilhosa de compartilhamento de informações que nos é oferecida hoje é sim algo próximo do mágico: dados voando na tela, milhares de rostos e pessoas flutuando à sua frente, memes, muitos memes, as mesmas piadas sendo contadas um milhão de vezes, à exaustão. E para piorar, temos as pessoas.

Acho que uma das coisas mais legais de manter real e verdadeira interação social com o mundo é que você passa a conhecer as pessoas de verdade. Alguns argumentarão que antigamente havia correspondência por correio, o que inegavelmente, era uma boa ferramenta. Mas naquela época quem se dignava a pegar a caneta, pena ou máquina de escrever, não materializava apenas dez ou doze linhas de informações. As pessoas realmente escreviam cartas, contando sobre como a vida estava, explicando um assunto em comum, argumentando, discutindo. Lembro que quando comecei a usar e-mail, ainda tínhamos esta mentalidade: escrever o que realmente deve ser escrito, e e-mails eram longos! Já hoje, nos satisfazemos com duas ou três linhas, é suficiente - você só quer que aquele pequeno filamento de informação chegue ao "outro lado".

As redes sociais estão estrangulando nosso convívio social verdadeiro, ao invés de dar vazão para o mesmo. O mundo está veloz demais, rápido demais, ocupado demais e nós, sem tempo para os amigos e família. Elas criam relacionamentos delicados, construídos em papel fino, não em madeira ou concreto. E é neste ponto que você começa a se decepcionar com as pessoas. Ao receber as opiniões de todos, sem qualquer discrição ou filtro, você acaba descobrindo que algumas pessoas na verdade não são tão próximas de você do que imaginaria. Antes das redes sociais, esta pessoa estaria na sua frente, falando o que ela disse, talvez com outras olhando. Será que ela teria coragem de falar realmente tudo o que pensa? Será que o medo da repreensão social não faria com que ela pensasse duas vezes antes de entrar numa discussão, independente dela ter a razão ou não?

O facebook está deixando as pessoas mais corajosas, desinibindo-as para falarem sobre o que quiserem. Aí vemos comentários preconceituosos, racistas, sexistas, fascistas, etc. E quem gosta de uma boa discussão, de uma argumentação acalorada, acaba mordendo a isca. Isto só pode levar a um caminho: a procrastinação. Aqueles que se deixam envolver demais pelo fascínio brilhante das redes sociais, como uma mariposa pela lâmpada, acabam dando mais importância a um site na internet do que aos seus relacionamentos, aos seus projetos pessoais, muitas vezes ao trabalho, reduzindo o rendimento e produtividade.

Não vou apagar meu perfil. Não vou bloquear as pessoas, removê-las da minha "persona virtual". Mas deixo meu conselho: vivam menos no facebook e passem mais tempo com suas próprias vidas. Desta forma menos gente te decepcionará, incluindo você mesmo.

9 comentários:

Joba disse...

Acho que as pessoas se decepcionam com alguma coisa quando dão um passo além do que deviam. Sempre que eu me exponho demais, eu recebo comentários inesperados de pessoas inesperadas. E nestas horas, eu me sinto mal.
Talvez você esteja incomodado justamente por ter se envolvido um pouco mais do que queria com o Facebook. Agora sente que precisa dar um passo atrás. Acho que o teu conselho do blog é, de certa forma, um conselho teu para ti mesmo. Dê menos importância para isso.

Bart Rabelo disse...

Jô, você pegou exatamente o espírito da coisa toda. E sim, o meu post/conselho na verdade deriva de uma auto-reflexão e podemos dizer, nova diretriz. :)

just me (offlife) disse...

Se você chega perto demais, acaba percebendo as imperfeições que fazia questão de não observar. E como a 'tolerância' é algo que se esvai nesse mundo agitado e super-informado, pode vir a fazer afastar-se de coisas que nem eram tão ruins assim.
Meus e-mails ainda são grandes feito cartas, ainda escrevo cartas, uso a rede social para manter contato com as poucas pessoas com as quais não consigo interagir de outros modos.
Mas realmente, não há nada que pague mais sorrisos do que uma interação real.
Viva a própria vida, a internet não deve passar do que realmente é: uma ferramenta. Você não pode viver um martelo, ou um alicate, pode?

Bete disse...

Esta parte em que você diz: "vivam menos no facebook e passem mais tempo com suas próprias vidas. Desta forma menos gente te decepcionará, incluindo você mesmo." é o que sinto verdadeiramente.

Já tive 3 contas no facebook, a última, atual, com apenas 32 pessoas e estou ausente agora de lá porque aquilo adoece a nossa personalidade.
Viver e conviver não é estar horas sentado em frente ao computador a falar para quem não se conhece. E o pior é que na rede social toda a gente é muito boa e positiva, paz e amor, flores e imagens bonitas, "amigos verdadeiros" que à menor contrariedade te viram os dentes ou desaparecem. Viver não é isso. Há informação útil que circula por lá, ativismo também, mas as pessoas não são tão verdadeiras como querem parecer.
Bom post o seu.

Elisabete

luiz ferreira disse...

O mais engraçado é que você escreveu esse "desabafo" há +/- um ano e é o que estou vivendo nesse momento, decepcionei-me realmente com pessoas nas quais estive muito tempo virtualmente falando, parecem esconder a real face por trás do face, não consigo ler livros ou textos em uma tela e isso fez com que eu parasse de ler obras importantes pelo fato de passar muito tempo na frente do computador sem contar que minha produção de textos mais ou menos rebuscados caiu drasticamente pelo fato de as futilidades serem as únicas coisas que se vêem na ferramenta facebook. O alienativo facebook não perde para as porcarias de Reality shows com confinações de pessoas, a única diferença é que para estar dentro deste reality pode ser qualquer sem precisar fazer seleções. Tudo tem seus prós e contras no meu caso eu deixo para os facepatas os prós e fico observando de fora os contras.

Chefe Hurucai disse...

Bart, cheguei aqui através do 'Contrato de Namoro' e acabei me deparando com algumas inquietudes bem parecidas com as minhas.
Quase na mesma época também escrevi algo no meu blog
(http://chefehurucai.blogspot.com.br/2012/04/um-fenomeno-chamado-facebook.html) e ainda que não tenha sido reflexões tão profundas como a sua, estamos falando do ano de 2012, quase 2 anos passados, e tenho observado que cada dia nos é mais normal esta questão do facebook.
Lendo o seu blog é que eu fui me lembrar deste meu escrito, cada dia as coisas parecem ficar um pouco mais artificiais.
O principal é como você mesmo disse: "vivam menos no facebook e passem mais tempo com suas próprias vidas. Desta forma menos gente te decepcionará, incluindo você mesmo". Foi um ótimo lembrete para começar a semana!

Pedro Bernardes disse...

Bart, ler este post seu me trouxe a maior paz que poderia sentir a ler um post na internet. Apaguei meu Facebook a mais ou menos um mês e foi exatamente por isso. De fato eu não acho que as pessoas devem se isentar da vida virtual e apagar seus perfis online. Mas o que percebo e que estamos num mundo onde a vida virtual se sobrepõe a vida real. Este seu post é de 2012 e vejo que atualmente as coisas continuam na mesma, ou mais graves. Além de me tomar muito tempo eu percebi que não fazer nada online (na vida virtual) e não fazer nada offline (na vida real) são coisas completamente diferentes. Agora quando estou sem nada para fazer ao invés de ficar mais que uma hora vendo vídeos de gatineos, cachorrineos e mais infinitos memes opto por dar uma volta, pegar um ar fresco, ir pra Dice N Roll ficar sentado pensando na vida esperando algum papo que me desperte interesse surgir no balcão ou qualquer outra coisa que sem a intenção acaba me acrescentando algo além de risadas rasas e momentos artificiais na rede. As relações estão cada vez mais passando por um processo de virtualização e de repente você percebe que está meses sem ver um camarada seu porque faz tempo que ele não atualiza a foto dele na rede e quando você esbarra com ele na rua ele já esta completamente diferente. A interação virtual, os likes, as compartilhações na rede e todo outro tipo de interação social feita virtualmente ligeiramente e de forma imperceptível tomam o lugar de cafezinhos, encontros presenciais, rodas de papo furado sexta-feira a noite e outras coisas que te fazem estar presente na vida de alguém que te importa. Toda essa rede de informações sobre colegas, vizinhos, parentes, amigos e suas vidas, anestesiam nossa saudade e a falta que faz não presenciar a vida destas pessoas em andamento. Um grande abraço pra você e muito obrigado por este texto, sintetizou muito bem ideias e sentimentos meus que eu não conseguia sintetizar.

Bart Rabelo disse...

Pedro, quase 5 anos se passaram do post original e o sentimento permanece. Estou iniciando um mês "sabático" do facebook e é incrível como ainda sinto uma estranha compulsão e sentimento de vazio ao não clicar nos ícones e atalhos certos (removi todos os atalhos e links dos meus navegadores para me policiar). E estamos "na mesma página", é importantíssimo continuar dando valor para as relações humanas ao vivo.

Pedro Bernardes disse...

Sinto a mesma coisa Bart. Ja estou alguns meses sem o Facebook e as vezes sinto falta de certas coisas que estava acostumado a fazer diariamente por conta dessa cultura virtual. Quando reflito sobre tais "necessidades" percebo que a falta que me fazem são somente do antigo costume que tinha de estar online e que, de fato ,essas relações virtuais e a importância que atribuímos ao feedback do publico se enraízam em nossas mentes por conta da propagação e consumo dessa cultura virtual. Costumo sentir muita dificuldade em sintetizar este sentimento que compartilhamos quando alguém questiona esta minha atitude de desvirtualizar um pouco a minha vida, e essa conversa trouxe a mim uma tranquilidade muito gratificante quanto a isso. Um grande abraço e obrigado pela troca.