Por quê não gosto mais do facebook

Como disse ontem, causando certo horror, apreensão e preocupação, estou de saco cheio do facebook. Na verdade, estou de saco cheio de um monte de coisas, mas não consigo me livrar de todas com facilidade. Antes que venham me perguntar, não, eu não pretendo fazer "facebookcídio", como há alguns anos atrás era comuns as pessoas dizerem que fizeram "orkutcídio". Isso é estúpido, primeiro porque caso sua intenção seja manter a privacidade dos seus dados, já os perdeu - o facebook e a Google guardam todos os dados de quem se inscreve nos seus sites e programas. Em segundo lugar, se a sua intenção ao apagar um perfil em rede social é evitar que as pessoas "fuxiquem" sua vida, bem, tenho novidades para você - as pessoas só buscam saber o que você mesmo compartilha com elas. Se você ficar quietinho, caladinho no seu canto, ninguém vai ficar sabendo.

O facebook é uma rede social, na qual você mantém contato com seus amigos e conhecidos. Oh, nenhuma novidade. Até agora, é só mais uma rede social - não tenho nada contra este princípio, o problema é que o facebook tende a criar uma "rede dentro da rede", um novo ambiente no qual a sua participação, as suas idéias, a sua presença, os seus dados pessoais e profissionais, são a verdadeira moeda. Anotem o que estou falando, daqui a pouco o tal do "facebookmail" (que ainda não colou) será transformado em pré-requisito para usar alguma funcionalidade nova do site, sendo integrado ao chat online. Uau, que novidade, não?! Quem tiver o mínimo de visão lembrará que o e-mail da Google é integrado ao chat online da Google que são integrados a qualquer programa ou site da Google. O velho e bom combo do Gmail + Gtalk, na estrada desde o quê, 2005? 2006?

Não lembro direito, pois parece que foi há uma eternidade. Seis ou sete anos. E o que nós fizemos neste tempo todo? O quanto construímos? De lá para cá eu me mudei de cidade, casei, troquei de emprego, aconteceu muita coisa na minha vida. Entretanto olhando para trás, nenhuma, absolutamente nenhuma dessas coisas boas tiveram o "dedo mágico" de uma rede social, seja o orkut, o facebook, etc etc. Aliás, pelo contrário, a rede maravilhosa de compartilhamento de informações que nos é oferecida hoje é sim algo próximo do mágico: dados voando na tela, milhares de rostos e pessoas flutuando à sua frente, memes, muitos memes, as mesmas piadas sendo contadas um milhão de vezes, à exaustão. E para piorar, temos as pessoas.

Acho que uma das coisas mais legais de manter real e verdadeira interação social com o mundo é que você passa a conhecer as pessoas de verdade. Alguns argumentarão que antigamente havia correspondência por correio, o que inegavelmente, era uma boa ferramenta. Mas naquela época quem se dignava a pegar a caneta, pena ou máquina de escrever, não materializava apenas dez ou doze linhas de informações. As pessoas realmente escreviam cartas, contando sobre como a vida estava, explicando um assunto em comum, argumentando, discutindo. Lembro que quando comecei a usar e-mail, ainda tínhamos esta mentalidade: escrever o que realmente deve ser escrito, e e-mails eram longos! Já hoje, nos satisfazemos com duas ou três linhas, é suficiente - você só quer que aquele pequeno filamento de informação chegue ao "outro lado".

As redes sociais estão estrangulando nosso convívio social verdadeiro, ao invés de dar vazão para o mesmo. O mundo está veloz demais, rápido demais, ocupado demais e nós, sem tempo para os amigos e família. Elas criam relacionamentos delicados, construídos em papel fino, não em madeira ou concreto. E é neste ponto que você começa a se decepcionar com as pessoas. Ao receber as opiniões de todos, sem qualquer discrição ou filtro, você acaba descobrindo que algumas pessoas na verdade não são tão próximas de você do que imaginaria. Antes das redes sociais, esta pessoa estaria na sua frente, falando o que ela disse, talvez com outras olhando. Será que ela teria coragem de falar realmente tudo o que pensa? Será que o medo da repreensão social não faria com que ela pensasse duas vezes antes de entrar numa discussão, independente dela ter a razão ou não?

O facebook está deixando as pessoas mais corajosas, desinibindo-as para falarem sobre o que quiserem. Aí vemos comentários preconceituosos, racistas, sexistas, fascistas, etc. E quem gosta de uma boa discussão, de uma argumentação acalorada, acaba mordendo a isca. Isto só pode levar a um caminho: a procrastinação. Aqueles que se deixam envolver demais pelo fascínio brilhante das redes sociais, como uma mariposa pela lâmpada, acabam dando mais importância a um site na internet do que aos seus relacionamentos, aos seus projetos pessoais, muitas vezes ao trabalho, reduzindo o rendimento e produtividade.

Não vou apagar meu perfil. Não vou bloquear as pessoas, removê-las da minha "persona virtual". Mas deixo meu conselho: vivam menos no facebook e passem mais tempo com suas próprias vidas. Desta forma menos gente te decepcionará, incluindo você mesmo.
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