Toda a verdade sobre as Barcas

Se preparem que o texto é longo e se estou avisando isso é porque é longo mesmo. Vamos começar pelo início. Para quem não sabe, o serviço de barcas realiza a travessia entre o Rio de Janeiro e Niterói diariamente há quase 160 anos. Durante muito tempo ele pertenceu à iniciativa privada, até que em 1967 foi estatizado.

Vamos chamar o primeiro período "pré-estatização" de "Caos 1". Nesta época, particularmente nos anos 50 e 60, quando o serviço era controlado por um consórcio chamado "Grupo Carreteiro", começaram as primeiras revoltas. A famosa "Revolta das Barcas" aconteceu em 1959, causada por um simples dia de atrasos, filas longas e desorganização total. Porém o serviço já vinha apresentando péssima qualidade há tempos. Sucedeu-se um levante geral, com a destruição parcial da Estação da Cantareira, de parte da frota e da mansão da família Carreteiro, no bairro do Ingá.

Mesmo com tanta bagunça e revolta, os problemas continuaram. A foto acima é de uma nova revolta, realizada em 1961, após um anúncio de aumento no valor das passagens. Desta vez a Estação da Cantareira não resistiu e sucumbiu definitivamente ao fogo, sendo então substituída por uma estação "temporária" no centro de Niterói. A tal estação "temporária", que serviria apenas como medida paliativa, é a atual estação que nós conhecemos.

Veio 1967, a estatização e a família Carreteiro se viu livre do "fardo" da Barcas. Pobres coitados, após tantos anos explorando os serviços e sugando o dinheiro do Estado, sempre alegando prejuízo, eles continuavam comprando propriedades e aumentando sua fortuna. Não sei como é na casa dos outros, mas aqui quando o dinheiro está curto, a gente costuma parar de gastar ao invés de sair comprando coisas aleatórias.

Em 1998 o tal consórcio "Barcas S/A" ganhou uma concessão de 25 anos para explorar os serviços das barcas. O que pouca gente sabe e que a Barcas S/A faz de tudo para que ninguém descubra, é que os acionistas deste consórcio são: Andrade Gutierrez (empreiteira), Viação 1001 (transporte rodoviário), Wilson Sons (empresa de logística e soluções navais) e RJ Administração e Participações (não sei que empresa é esta).

Peralá. A Viação 1001 a gente conhece, eles praticamente monopolizam o transporte rodoviário intermunicipal entre a Grande Rio e o resto do estado. Legal que eles também se interessem por transporte hidroviário, não? Mas vou contar outro segredo guardado a sete chaves. Sabem a Ponte Rio-Niterói, também conhecida como a "outra" forma de se atravessar com certa rapidez (hoje em dia isso é monstruosamente discutível) a Baía de Guanabara? Sabem quais são as empresas que formam o consórcio Ponte S/A? A Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa. Duas empreiteiras, cujo consórcio faz parte da CCR, também conhecida como a empresa que "está tapando buracos pelo Brasil inteiro, colocando pedágios e ganhando uma grana violenta com isso". E no nosso caso, a Andrade Gutierrez também manda nas barcas. Ou seja, esta idônea, sólida e poderosa empresa é uma das responsáveis por toda a merda que ocorre no transporte entre o Rio e Niterói, seja por terra (ponte) ou por mar.

Só pode ser sacanagem com a nossa cara, né? Podemos concluir que em 1998 iniciou-se o "Caos 2".

Então, no ano passado, em Abril de 2009, eu estava lá na Estação da Praça XV quando rolou um quebra-quebra generalizado, motivado por uma noite de atrasos, filas longas e desorganização total. Porém o serviço já vinha apresentando péssima qualidade há tempos. Sim, acabei de copiar o texto do segundo parágrafo, pois a situação é absolutamente idêntica à de 1959 e 1961. As pessoas estavam nervosas, era literalmente uma turba enraivecida. Consegui entrar na estação, pagando minha passagem como bom e honesto otário que sou, apesar de todos estarem pulando as catracas. Uma barca veio, o capitão sensatamente não abriu as portas e foi embora, pois provavelmente a embarcação seria invadida, pessoas se machucariam e a super-lotação poderia causar uma tragédia. Lá na rampa de embarque encontrei com um amigo sensato que me convenceu a procurarmos cerveja em um bar ao invés do caos instaurado lá nas barcas.

Passou-se mais de um ano e na semana passada lá estava eu, dentro da estação das barcas em Niterói, esperando meu transporte de péssima qualidade para o Rio. A barca das 08:00 hrs veio em nossa direção, deu um belo "cavalo-de-pau" na água e seguiu reto em direção ao enrocamento de um shopping próximo dali. Bateu. Disseram que foi um "desvio", uma "ancoragem de emergência". Gente, a barca bateu. Simplesmente bateu, como mostra a foto acima, de 2010. E poderia ter sido pior, se o capitão da mesma não tivesse desviado de uma estação apinhada com mais de 2000 pessoas. Seguiu-se uma manhã de atrasos, filas longas e desorganização total. Porém o serviço já vinha apresentando péssima qualidade há tempos.

Foi mal. Copiei o mesmo texto de novo. O pior é que isto vai continuar acontecendo, pois o tal Grupo Barcas S/A ainda tem a concessão por mais 13 anos. Eles vivem pedindo ajuda financeira ao Governo do Estado, alegando prejuízos e falta e capital para investir no negócio. Caramba, coitadinhos, não? Nem parecem ser algumas das empresas mais poderosas do Estado que estão mendigando dinheiro para os cofres públicos. Meu dinheiro. Seu dinheiro. Nosso dinheiro, de otários que não apenas pagam um absurdo em impostos, mas também pagam para usar o serviço podre e desumano ao qual as Barcas S/A nos submetem.

Eles realmente precisam de dinheiro? É uma questão pública? Então que as contas das Barcas S/A sejam abertas para o público! Eu quero ver os números, quero ver o tal prejuízo que eles alegam ter. Está tão difícil assim a situação? É o mesmo com todo mundo, malandro. Aqui em casa também está. Eu bem queria ter uma televisão Full HD de 42 polegadas, mas agora não dá. Tenho que me contentar com a LCD de 22 polegadas, que aliás, ganhei num sorteio na festa de fim-de-ano da minha empresa.

A Barcas S/A que se prepare. Sábias são as pessoas que aprendem com a história e como nós já vimos, a diferença entre a Revolta de 1959 e a de 1961 é que a segunda foi motivada por um simples aumento no preço da passagem, para se ver o estado de nervos generalizado das pessoas que utilizavam o serviço. Do jeito que a coisa anda, é bem provável que o consórcio faça o mesmo a qualquer momento. Eles seriam tão corajosos? Eles realmente não tem medo do que a população é capaz de fazer?

Palavra de quem esteve literalmente presente nos piores dias das barcas nos últimos dois anos: já consigo sentir o cheio da gasolina e o som dos fósforos raspando nas suas caixas...
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