Decidi postar aqui minhas brevíssimas resenhas dos discos que escuto. Não é nada muito complicado, nem vou fazer profundas análises musicais ou um "faixa-por-faixa" - simplesmente, como o título diz, a resenha é uma "impressão musical". O feeling que o disco me passa, o tipo de música que ele contém, a qualidade geral da gravação e das composições. À frente do título do álbum, vou utilizar uma classificação geral que varia conforme abaixo:
= Nem se dê ao trabalho de ouvir.
= Fraco, poderia ter sido melhor.
= Razoável, não fede nem cheira.
= Bom disco, vale a pena comprar.
= Ouça. Agora. Você não sabe o que está perdendo.
Começo com cinco petardos de uma vez só, os lançamentos mais dignos de nota deste ano:

- Black Ice (AC/DC) [2008]
Está aí um disco digno de nota. O AC/DC surgiu das trevas de várias décadas de acomodação e conforto, escrevendo ocasionais músicas interessantes, porém nada com o mesmo ímpeto roqueiro da década de 70. "Black Ice" é uma lição de rock'n'roll para esta imensidão de bandas novas que "acham" saberem tudo sobre música. O disco é excelente do início ao fim, e o melhor: AC/DC style. Eles não fogem da antiga fórmula que consagrou a banda e talvez seja isto que deu um toque especial à gravação: o retorno às raízes, sem frescuras modistas. Obrigatório ouvir este disco e aproveitar pois está sendo vendido por um preço bastante acessível em todas as lojas do país. 28 anos após "Back in Black", o AC/DC prova que é capaz de voltar em grande estilo.

- The Formation of Damnation (Testament) [2008]
O quê dizer sobre o Testament? Eles sempre foram uma das melhoras bandas de thrash metal do mundo e com certeza uma das minhas favoritas. Este é o primeiro disco com o retorno da formação "clássica" (com Chuck Billy, Eric Peterson, Alex Skolnick e Greg Christian, porém sem Louis Clemente devido à sua enfermidade). O álbum é um petardo que equilibra com perfeição peso e melodia, no melhor estilo do início do Testament - porém os músicos estão mais maduros e experientes. A banda mostra que está mais viva e enérgica do que nunca, com todos os músicos apresentando performances magistrais e o melhor de tudo - vontade para continuar os trabalhos. Sim, o Testament voltou pra valer, na minha opinião, a melhor banda de thrash metal da atualidade.

- Global Warning (Jon Oliva's Pain) [2008]
Quem me conhece, sabe que sou um grande fã do Savatage. Daquele tipo de fã que tem todos os CDs, vai em todos os shows, etc etc. O Jon Oliva's Pain, conforme anunciado pelo próprio, é a banda que continua com o legado do Savatage, colocado no freezer por tempo indeterminado. O que temos neste disco vai além da música do Savatage - Jon Oliva conseguiu evoluir sua música para algo mais grandioso. Ainda usando riffs e licks recém-descobertos do seu irmão Criss, ele eleva sua música à capacidade de equilibrar momentos de forte vigor e rispidez com melodias e baladas suaves. Parece-me que todo o trabalho dos dois discos anteriores do JOP estava destinado a culminar nesta excelente gravação, que comprova algo que eu já sabia há tempos: o Sr. Jonathan Nicholas Oliva é um gênio - infelizmente, sem o devido reconhecimento.

- Death Magnetic (Metallica) [2008]
Havia muita expectativa em torno do lançamento do "Death Magnetic", especialmente após o fiasco total que foi o "St. Anger". Graças a todo o pessimismo dos fãs no mundo inteiro, o Metallica nos surpreende com o melhor lançamento da banda desde o multi-platinado "Black Album". Obviamente o disco não está no mesmo nível que os maiores clássicos da banda, mas pelo menos eles mostraram que estão dispostos a fazer boa música novamente. Riffs poderosos de guitarra, ricas linhas de baixo, vocais precisos, composições cativantes e pasmem: solos. O Metallica está jogando na nossa cara que eles ainda tem gás e coisas boas para oferecer. Eu digo: vamos pagar pra ver.

- Chinese Democracy (Guns N'Roses) [2008]
"Chinese Democracy" talvez seja o disco de rock mais aguardado dos últimos quinze anos. Eu mesmo estava bastante curioso para ouví-lo, pois gosto muito do Guns. Após isso, cheguei a uma conclusão: o Muse flerta com a música eletrônica. O Nine Inch Nails e o Ministry consagraram um casamento maravilhoso e sólido com a música eletrônica. O Rammstein pratica S&M consensual com a música eletrônica. O Guns N' Roses teve uma foda mal dada com a música eletrônica, daquelas que você não liga de volta dois dias depois e ainda tem vergonha de contar para os amigos.
Onde o Axl Rose está com a cabeça? Lançou o disco apenas "por lançar", ou por pressão da gravadora? Será que ele fez isso para provar que podia lançar seu disco no mesmo ano que tantas bandas voltaram a fazer música boa? Uma aviso para ele: seria até possível, mas para isso acontecer, ele precisa antes fazer músicas boas. Espero com toda sinceridade que o "Chinese Democracy" seja o "St. Anger" do Guns N' Roses, e que daqui a alguns anos todos possamos ouvir um bom lançamento deles. Mas do jeito que a coisa anda, com os principais compositores da banda liderando o Velvet Revolver, acho muito improvável. Meu conselho é gratuito: nem se dê ao trabalho de escutar o "Chinese Democracy", e se você respeita o legado de uma das maiores bandas de hard rock de todos os tempos, jamais ouça esta porcaria, pois ela se iguala a toda a mediocridade do cenário musical atual.
= Nem se dê ao trabalho de ouvir.
= Fraco, poderia ter sido melhor.
= Razoável, não fede nem cheira.
= Bom disco, vale a pena comprar.
= Ouça. Agora. Você não sabe o que está perdendo.Começo com cinco petardos de uma vez só, os lançamentos mais dignos de nota deste ano:

- Black Ice (AC/DC) [2008]Está aí um disco digno de nota. O AC/DC surgiu das trevas de várias décadas de acomodação e conforto, escrevendo ocasionais músicas interessantes, porém nada com o mesmo ímpeto roqueiro da década de 70. "Black Ice" é uma lição de rock'n'roll para esta imensidão de bandas novas que "acham" saberem tudo sobre música. O disco é excelente do início ao fim, e o melhor: AC/DC style. Eles não fogem da antiga fórmula que consagrou a banda e talvez seja isto que deu um toque especial à gravação: o retorno às raízes, sem frescuras modistas. Obrigatório ouvir este disco e aproveitar pois está sendo vendido por um preço bastante acessível em todas as lojas do país. 28 anos após "Back in Black", o AC/DC prova que é capaz de voltar em grande estilo.

- The Formation of Damnation (Testament) [2008]O quê dizer sobre o Testament? Eles sempre foram uma das melhoras bandas de thrash metal do mundo e com certeza uma das minhas favoritas. Este é o primeiro disco com o retorno da formação "clássica" (com Chuck Billy, Eric Peterson, Alex Skolnick e Greg Christian, porém sem Louis Clemente devido à sua enfermidade). O álbum é um petardo que equilibra com perfeição peso e melodia, no melhor estilo do início do Testament - porém os músicos estão mais maduros e experientes. A banda mostra que está mais viva e enérgica do que nunca, com todos os músicos apresentando performances magistrais e o melhor de tudo - vontade para continuar os trabalhos. Sim, o Testament voltou pra valer, na minha opinião, a melhor banda de thrash metal da atualidade.

- Global Warning (Jon Oliva's Pain) [2008]Quem me conhece, sabe que sou um grande fã do Savatage. Daquele tipo de fã que tem todos os CDs, vai em todos os shows, etc etc. O Jon Oliva's Pain, conforme anunciado pelo próprio, é a banda que continua com o legado do Savatage, colocado no freezer por tempo indeterminado. O que temos neste disco vai além da música do Savatage - Jon Oliva conseguiu evoluir sua música para algo mais grandioso. Ainda usando riffs e licks recém-descobertos do seu irmão Criss, ele eleva sua música à capacidade de equilibrar momentos de forte vigor e rispidez com melodias e baladas suaves. Parece-me que todo o trabalho dos dois discos anteriores do JOP estava destinado a culminar nesta excelente gravação, que comprova algo que eu já sabia há tempos: o Sr. Jonathan Nicholas Oliva é um gênio - infelizmente, sem o devido reconhecimento.

- Death Magnetic (Metallica) [2008]Havia muita expectativa em torno do lançamento do "Death Magnetic", especialmente após o fiasco total que foi o "St. Anger". Graças a todo o pessimismo dos fãs no mundo inteiro, o Metallica nos surpreende com o melhor lançamento da banda desde o multi-platinado "Black Album". Obviamente o disco não está no mesmo nível que os maiores clássicos da banda, mas pelo menos eles mostraram que estão dispostos a fazer boa música novamente. Riffs poderosos de guitarra, ricas linhas de baixo, vocais precisos, composições cativantes e pasmem: solos. O Metallica está jogando na nossa cara que eles ainda tem gás e coisas boas para oferecer. Eu digo: vamos pagar pra ver.

- Chinese Democracy (Guns N'Roses) [2008]"Chinese Democracy" talvez seja o disco de rock mais aguardado dos últimos quinze anos. Eu mesmo estava bastante curioso para ouví-lo, pois gosto muito do Guns. Após isso, cheguei a uma conclusão: o Muse flerta com a música eletrônica. O Nine Inch Nails e o Ministry consagraram um casamento maravilhoso e sólido com a música eletrônica. O Rammstein pratica S&M consensual com a música eletrônica. O Guns N' Roses teve uma foda mal dada com a música eletrônica, daquelas que você não liga de volta dois dias depois e ainda tem vergonha de contar para os amigos.
Onde o Axl Rose está com a cabeça? Lançou o disco apenas "por lançar", ou por pressão da gravadora? Será que ele fez isso para provar que podia lançar seu disco no mesmo ano que tantas bandas voltaram a fazer música boa? Uma aviso para ele: seria até possível, mas para isso acontecer, ele precisa antes fazer músicas boas. Espero com toda sinceridade que o "Chinese Democracy" seja o "St. Anger" do Guns N' Roses, e que daqui a alguns anos todos possamos ouvir um bom lançamento deles. Mas do jeito que a coisa anda, com os principais compositores da banda liderando o Velvet Revolver, acho muito improvável. Meu conselho é gratuito: nem se dê ao trabalho de escutar o "Chinese Democracy", e se você respeita o legado de uma das maiores bandas de hard rock de todos os tempos, jamais ouça esta porcaria, pois ela se iguala a toda a mediocridade do cenário musical atual.
Crônica Aleatória: "O Viajante"
Escrito por Bart Rabelo |
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Todo o conteúdo deste sítio, exceto quando assinalado, é de autoria de Bart Rabelo. Favor não usar, copiar, reproduzir e modificar sem prévia autorização.
Otávio era um homem bastante viajado, alguns diriam. Outros alegam que ele não é capaz de parar em casa porque odeia sua esposa. A verdade é que sua empresa exige que ele visite várias locações operacionais diferentes, o que o obriga a viajar para fora pelo menos duas vezes todo mês. A maior parte das missões envolve passar não mais do que cerca de três dias em uma cidade, então ele retorna ao Brasil. A rotina de viver em aeroportos e dentro de aviões transcontinentais é cansativa porém recompensadora, pois se havia algo com o qual Otávio jamais se preocupara era dinheiro. Além disso, ele sempre conseguiu ótimos prêmios graças à milhagem acumulada.
Certa vez ele foi enviado até uma pequena cidade na Noruega chamada Høyland. Não passava de um vilarejo a cerca de trinta minutos de carro ao sul do Aeroporto de Solas. O taxista não falava muito inglês e Otávio não sabia mais do que algumas palavras em norueguês, mas na verdade os cabelos escuros e pele morena do motorista denunciavam que ele deveria ser qualquer coisa menos escandinavo. A descoberta de uma pequena bandeira da Turquia presa no painel atrás do volante explicou tudo. O endereço da pequena fábrica de alimentos enlatados deveria ser suficiente para que ele se guiasse, mas a viagem acabou demorando um pouco mais devido às paradas para solicitar informação.
Após receber as notas de coroas norueguesas com uma boa gorjeta o taxista sorriu e disse: "takk og hat det bra". Otávio fez sinal para que ele esperasse ali, pois a visita não deveria demorar muito. Bateu na porta da fábrica e tocou a campainha por cinco minutos, mas ninguém apareceu. Olhou para o relógio e percebeu o quão tolo havia sido - era domingo. Obviamente a fábrica estaria deserta. Voltou ao taxi e pediu para ser deixado em um bom hotel. "Bra hotel", disse devagar. Deixou o motorista levá-lo até a cidade de Sandnes, não muito longe dali, onde encontrou um hotel de renome internacional com vagas.
Seu quarto não era luxuoso, porém com adequado conforto. A televisão o confundia e ele não estava com paciência para conferir suas mensagens no laptop, logo decidiu dar uma chance à academia de ginástica. Após mais ou menos uma hora voltou às suas acomodações, pediu um sanduíche de frango ao serviço de quarto, leu parte do livro que iniciou durante o vôo e finalmente sentiu todo o peso do jet lag cair violentamente na sua cabeça. Antes de apagar só teve tempo para ajustar o despertador de forma que não perdesse a hora no dia seguinte.
O advento da manhã fez com que levantasse preguiçosamente. Vestiu-se, arrumou sua pequena mala de viagem e desceu para comer o café-da-manhã. O restaurante do hotel já estava apinhado de gente, mas ainda assim ele conseguiu fazer um prato com calma - pegou um copo de suco de laranja e botou dois croissants no prato. Lambuzou os pães abertos com manteiga de laranja e então deitou algumas fatias de presunto de parma entre as duas metades de cada um deles. Saboreou o sanduíche exótico para o padrão brasileiro com bastante prazer, deixando cada elemento se desfazer dentro da sua boca lentamente.
Após pagar rapidamente a conta do hotel pegou suas coisas e chamou um taxi. Desta vez o motorista falava um bom inglês, então pediu para ser levado novamente a Høyland. Como desta vez já estava ciente do melhor caminho, chegaram lá em pouco tempo. Pediu que o motorista o esperasse e foi à porta da fábrica. A recepcionista loira com pele quase translúcida o atendeu em norueguês com um sorridente "God dag" e rapidamente percebeu que o brasileiro não era familiar com sua língua. A moça estava na casa dos vinte anos e ele achava, era bastante bonita. Seu tipo de beleza era bem comum na Noruega, aquele tipo de mulher que se vê em cada esquina, porém para o homem acostumado com as beldades bronzeadas e temperamentais do Rio de Janeiro, a humilde recepcionista era tão exótica quando os croissants com manteiga de laranja e presunto de parma que ele comeu no café-da-manhã. Otávio pediu para conversar com o Sr. Per Morken, presidente da fábrica, anunciando a verdade: que era aguardado.
O caminho até o escritório do Sr. Morken mostrou todo o ócio da fábrica: o maquinário parecia não ter sido ligado há anos e as pequenas baias escondidas atrás de paredes de acrílico reforçado transparente não tinham mais computadores nem pessoas ocupadas. O chão precisava de uma boa faxina, ele tinha certeza disso. A fábrica inteira precisaria de uma ótima e completa limpeza, para ser sincero. A simpática moça bateu numa porta afastada das outras e envolta por uma parede de madeira e fórmica pintada. A porta foi aberta por um homem alto usando terno preto. Ele tinha cabelos castanhos e uma barba rala. Otávio entrou na sala, deixando a recepcionista para trás e então encontrou outro homem de terno preto de pé na sua frente. Poderia-se dizer que ambos eram irmãos gêmeos, se este não tivesse o cabelo dourado e o rosto bem barbeado.
À sua esquerda, sentado numa mesa, estava o grisalho e sisudo Sr. Morken. Otávio sentou-se na cadeira à sua frente e eles começaram a discutir os termos da aquisição. Vários papéis foram lidos e números rejeitados. A reunião parecia se estender por horas e de fato isto aconteceu, pois a recepcionista ocasionalmente trazia uma jarra d'água para o escritório e rapidamente se retirava. Otávio olhou seu relógio e percebeu que já era quase meio-dia, então lembrou-se das instruções do seu diretor - se não chegassem a um meio termo rapidamente, as negociações deveriam ser encerradas definitivamente. Levantou-se e pediu licença para ir ao banheiro, a qual foi prontamente cedida por seu anfitrião. Um pouco antes de fechar a porta da sala atrás dele, Otávio tirou do bolso o pequeno frasco de fibra de carbono contendo cianeto de hidrogênio em altíssima concentração. Com um rápido movimento circular com o polegar e o indicador, abriu a válvula reguladora do frasco e jogou-o dentro da sala, segurando a porta atrás dele. Em menos de cinco segundos ouviu os três corpos envenenados tombando no chão.
Retornando à recepção, seu coração quase se partiu. Estrangular a jovem recepcionista foi uma tarefa totalmente desprovida de prazer profissional, pois ele realmente tinha simpatizado com ela. Sentiu a alva e delicada pele do pescoço retorcer-se até a vermelhidão rígida enquanto seus belos olhos azuis fitavam-no perplexamente mortos. Deitou o corpo dela gentilmente no chão, disposto de uma forma serena e calma. Buscou a mala que havia deixado atrás do balcão sob a guarda da moça e se amaldiçoou novamente, pois percebeu que realmente tinha gostado bastante dela.
O taxi ainda estava em frente à fábrica, esperando pacientemente com o taxímetro rodando. Uma pequena fortuna aparecia no display, mas Otávio tinha orçamento suficiente para estas despesas. O lucro que sua empresa teria com o desativamento total das operações de Høyland cobria tudo e ainda permitia uma pequena excentricidade. Ao chegar no aeroporto fez o check in com uma atendente norueguesa que, surpreendentemente, falava português, pois segundo ela já havia morado no Brasil. Entretido pelo encontro aleatório, foi para a loja duty free e comprou um enorme alce de pelúcia para sua filhinha de quatro anos - tinha certeza que ela adoraria o novo amigo. Para sua esposa comprou um doce perfume de uma grife francesa bastante famosa. Otávio olhou para as compras com carinho e refletiu que, no fundo, apesar da vida cheia de situações e pessoas exóticas, não era capaz de viver sem o seu brasileiríssimo pão com margarina e mortadela.
Certa vez ele foi enviado até uma pequena cidade na Noruega chamada Høyland. Não passava de um vilarejo a cerca de trinta minutos de carro ao sul do Aeroporto de Solas. O taxista não falava muito inglês e Otávio não sabia mais do que algumas palavras em norueguês, mas na verdade os cabelos escuros e pele morena do motorista denunciavam que ele deveria ser qualquer coisa menos escandinavo. A descoberta de uma pequena bandeira da Turquia presa no painel atrás do volante explicou tudo. O endereço da pequena fábrica de alimentos enlatados deveria ser suficiente para que ele se guiasse, mas a viagem acabou demorando um pouco mais devido às paradas para solicitar informação.
Após receber as notas de coroas norueguesas com uma boa gorjeta o taxista sorriu e disse: "takk og hat det bra". Otávio fez sinal para que ele esperasse ali, pois a visita não deveria demorar muito. Bateu na porta da fábrica e tocou a campainha por cinco minutos, mas ninguém apareceu. Olhou para o relógio e percebeu o quão tolo havia sido - era domingo. Obviamente a fábrica estaria deserta. Voltou ao taxi e pediu para ser deixado em um bom hotel. "Bra hotel", disse devagar. Deixou o motorista levá-lo até a cidade de Sandnes, não muito longe dali, onde encontrou um hotel de renome internacional com vagas.
Seu quarto não era luxuoso, porém com adequado conforto. A televisão o confundia e ele não estava com paciência para conferir suas mensagens no laptop, logo decidiu dar uma chance à academia de ginástica. Após mais ou menos uma hora voltou às suas acomodações, pediu um sanduíche de frango ao serviço de quarto, leu parte do livro que iniciou durante o vôo e finalmente sentiu todo o peso do jet lag cair violentamente na sua cabeça. Antes de apagar só teve tempo para ajustar o despertador de forma que não perdesse a hora no dia seguinte.
O advento da manhã fez com que levantasse preguiçosamente. Vestiu-se, arrumou sua pequena mala de viagem e desceu para comer o café-da-manhã. O restaurante do hotel já estava apinhado de gente, mas ainda assim ele conseguiu fazer um prato com calma - pegou um copo de suco de laranja e botou dois croissants no prato. Lambuzou os pães abertos com manteiga de laranja e então deitou algumas fatias de presunto de parma entre as duas metades de cada um deles. Saboreou o sanduíche exótico para o padrão brasileiro com bastante prazer, deixando cada elemento se desfazer dentro da sua boca lentamente.
Após pagar rapidamente a conta do hotel pegou suas coisas e chamou um taxi. Desta vez o motorista falava um bom inglês, então pediu para ser levado novamente a Høyland. Como desta vez já estava ciente do melhor caminho, chegaram lá em pouco tempo. Pediu que o motorista o esperasse e foi à porta da fábrica. A recepcionista loira com pele quase translúcida o atendeu em norueguês com um sorridente "God dag" e rapidamente percebeu que o brasileiro não era familiar com sua língua. A moça estava na casa dos vinte anos e ele achava, era bastante bonita. Seu tipo de beleza era bem comum na Noruega, aquele tipo de mulher que se vê em cada esquina, porém para o homem acostumado com as beldades bronzeadas e temperamentais do Rio de Janeiro, a humilde recepcionista era tão exótica quando os croissants com manteiga de laranja e presunto de parma que ele comeu no café-da-manhã. Otávio pediu para conversar com o Sr. Per Morken, presidente da fábrica, anunciando a verdade: que era aguardado.
O caminho até o escritório do Sr. Morken mostrou todo o ócio da fábrica: o maquinário parecia não ter sido ligado há anos e as pequenas baias escondidas atrás de paredes de acrílico reforçado transparente não tinham mais computadores nem pessoas ocupadas. O chão precisava de uma boa faxina, ele tinha certeza disso. A fábrica inteira precisaria de uma ótima e completa limpeza, para ser sincero. A simpática moça bateu numa porta afastada das outras e envolta por uma parede de madeira e fórmica pintada. A porta foi aberta por um homem alto usando terno preto. Ele tinha cabelos castanhos e uma barba rala. Otávio entrou na sala, deixando a recepcionista para trás e então encontrou outro homem de terno preto de pé na sua frente. Poderia-se dizer que ambos eram irmãos gêmeos, se este não tivesse o cabelo dourado e o rosto bem barbeado.
À sua esquerda, sentado numa mesa, estava o grisalho e sisudo Sr. Morken. Otávio sentou-se na cadeira à sua frente e eles começaram a discutir os termos da aquisição. Vários papéis foram lidos e números rejeitados. A reunião parecia se estender por horas e de fato isto aconteceu, pois a recepcionista ocasionalmente trazia uma jarra d'água para o escritório e rapidamente se retirava. Otávio olhou seu relógio e percebeu que já era quase meio-dia, então lembrou-se das instruções do seu diretor - se não chegassem a um meio termo rapidamente, as negociações deveriam ser encerradas definitivamente. Levantou-se e pediu licença para ir ao banheiro, a qual foi prontamente cedida por seu anfitrião. Um pouco antes de fechar a porta da sala atrás dele, Otávio tirou do bolso o pequeno frasco de fibra de carbono contendo cianeto de hidrogênio em altíssima concentração. Com um rápido movimento circular com o polegar e o indicador, abriu a válvula reguladora do frasco e jogou-o dentro da sala, segurando a porta atrás dele. Em menos de cinco segundos ouviu os três corpos envenenados tombando no chão.
Retornando à recepção, seu coração quase se partiu. Estrangular a jovem recepcionista foi uma tarefa totalmente desprovida de prazer profissional, pois ele realmente tinha simpatizado com ela. Sentiu a alva e delicada pele do pescoço retorcer-se até a vermelhidão rígida enquanto seus belos olhos azuis fitavam-no perplexamente mortos. Deitou o corpo dela gentilmente no chão, disposto de uma forma serena e calma. Buscou a mala que havia deixado atrás do balcão sob a guarda da moça e se amaldiçoou novamente, pois percebeu que realmente tinha gostado bastante dela.
O taxi ainda estava em frente à fábrica, esperando pacientemente com o taxímetro rodando. Uma pequena fortuna aparecia no display, mas Otávio tinha orçamento suficiente para estas despesas. O lucro que sua empresa teria com o desativamento total das operações de Høyland cobria tudo e ainda permitia uma pequena excentricidade. Ao chegar no aeroporto fez o check in com uma atendente norueguesa que, surpreendentemente, falava português, pois segundo ela já havia morado no Brasil. Entretido pelo encontro aleatório, foi para a loja duty free e comprou um enorme alce de pelúcia para sua filhinha de quatro anos - tinha certeza que ela adoraria o novo amigo. Para sua esposa comprou um doce perfume de uma grife francesa bastante famosa. Otávio olhou para as compras com carinho e refletiu que, no fundo, apesar da vida cheia de situações e pessoas exóticas, não era capaz de viver sem o seu brasileiríssimo pão com margarina e mortadela.
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