19.1.07

Crônica Aleatória: "Modelo"

Com um lenço, Juliana enxugou o suor da testa, evitando assim que a maquiagem borrasse. Faltando apenas alguns instantes para entrar no programa ao vivo, ela já estava se arrependendo de ter aceito o convite. "O cachê é bom", dizia sua agente. "Vai ser ótimo para sua imagem, nós temos que te vender no Brasil inteiro". Era exatamente tudo o que sempre quis: ser transformada num objeto.

Apesar de tudo, tinha a consciência limpa. Iniciou-se tarde no mundo do modelismo, já com 17 anos, mas esta foi uma decisão consciente ? queria juntar dinheiro suficiente para pagar sua faculdade e pós-graduação em arquitetura. Achava que em apenas dois anos já conseguiria a quantia necessária, mas Juliana descobriu que o mundo era mais competitivo e difícil do que imaginava. Obrigada a se mudar para a capital do estado, passou a gastar mais dinheiro, e sua renda começou a diminuir drasticamente. Aos 22 anos, fazendo poucos trabalhos esporádicos, duvidava de seus escolhas e decisões passadas. Até que surgiu "a" oportunidade.

Helga, sua agente, um dia apareceu com essa idéia maluca de participar do reality show. Aparentemente a emissora estava procurando encher a casa do programa com jovens bonitas e voluptuosas, para aumentar a audiência, que andava meio fraquinha. Não seria nada mal para Juliana, pois o cachê pela participação no programa era bom, ela teria grande exposição na mídia, e quem sabe um convite para fazer fotos sensuais mais tarde. Com poucas semanas de programa, ela seu rosto já era conhecido por milhões de pessoas, mas eventualmente ela foi eliminada do programa. As fotos para a revista masculina ficaram ótimas, mas seu pai quase terminou relações com ela por causa disso. O problema é que os outros trabalhos não apareciam mais ? as agências de modelo não se interessavam por um rosto tão conhecido como o de Juliana, estigmatizado pela participação num programa popular. "Fica difícil vender o nosso produto com ela", era o que diziam na maioria das vezes. Então resolveu fazer pequenas aparições na TV, em programas de auditório e gincanas malucas, que normalmente a expunham ao ridículo.

"Sua vez Ju", disse o assistente de palco, que andava de um lado para o outro com seu rádio portátil e uma prancheta cheia de anotações. Odiava ser chamada de "Ju". Tinha orgulho do seu nome, que outrora pertencera à sua falecida avó, e não gostava de contrações e cortes. Se alguém a chamasse de "Juzinha", comprava briga pelo resto da vida. Com os nervos à flor da pele, caminhou em direção às luzes cegantes dos holofotes, sob o som de aplausos mistos: alguns poucos da pequena platéia ali presente, e outros muitos saídos dos auto-falantes, gravações para melhorar a imagem do programa. Sentou-se na poltrona grande, junto com outros três convidados supostamente famosos ? não se lembrava de tê-los visto antes em qualquer lugar.

Da cadeira oposta à poltrona, o entrevistador e dono do programa deu boas vindas, fez um pouco de diplomacia e disparou a fazer perguntas. No início foram todas bastante simplórias, do tipo "é verdade que você cresceu numa fazenda?", ou então "nós descobrimos que você já fez uma campanha para o Sabão Corpo & Luxo, vamos ver as fotos?". Tirou tudo de letra, e até que não era tão ruim quanto imaginava que seria. Mas o que era doce acabou, e o ardiloso entrevistador soltou:

"Agora o que todo o Brasil quer saber: o romance com o Paulão, continua fora da casa?"

Paulão. Um belo idiota. Juliana só o beijou na primeira festa no reality show porquê ele forçou a barra, e ela estava bêbada demais para reagir. Na verdade, ela estava bêbada demais para conseguir encontrar sua cama ? descobriu quando saiu do programa que a emissora editou e cortou as cenas nas quais ela vomitava no banheiro, e depois disso dava um belo tapa na cara do Paulão. No dia seguinte ele pediu desculpas, mas passou dias correndo atrás dela, aproveitando cada oportunidade para encoxá-la, passar a mão e simular uma relação que simplesmente não existia. Para o público, a coisa era diferente.

"Não, fora da casa nós decidimos ficar apenas amigos." Resposta simples, curta, sem dar margem para desvirtuamentos e comentários maldosos. E foi exatamente por esse motivo que Juliana ficou estarrecida, quando ouviu o apresentador chamar o cretino do Paulão pro palco, sob os aplausos mistos da platéia e da gravação. Ela se amaldiçoava por não ter percebido a armadilha desde o início: a produção fez questão de mantê-la num camarim diferente do usado pelos outros convidados, e ao lado de sua cadeira no palco havia um lugar estrategicamente vazio. Assim que se sentou ao lado dela, o rapaz sarado e com os braços incompreensivelmente tatuados segurou sua mão direita ? um falso afeto, pois quando tentou se desvencilhar do toque repugnante, percebeu que ele apertava seus dedos com força, de forma que ela não conseguisse se soltar. Então o entrevistador fez a mesma pergunta anteriormente direcionada à modelo, porém com os papéis invertidos.

"Olha, era pra ser segredo, saca? A gente não queria abrir assim, né morzinho? Mas não dá pra esconder o que todo mundo já sabe..."

O ódio transbordava pelos olhos de Juliana como uma cachoeira de sangue e sal. A partir daí, o apresentador bombardeou o falso casal com perguntas, a maioria de uma indiscrição enojante, e todas eram prontamente respondidas pelo sorridente Paulão. Juliana tinha plena certeza que jamais se livraria do terrível estigma de ter participado do reality show, até que surgiu a pergunta que lhe dava a chance para virar completamente o jogo:

"E então Juliana, o que você espera do futuro com o Paulão?"

Um lampejo de eletricidade percorreu o seu corpo, quando a resposta brilhou quente na sua cabeça. Então, sem sequer parar para respirar, ela disparou: "Olha, eu não posso mais viver esta farsa. Eu e o Paulão não temos um relacionamento, na verdade nunca tivemos. Ele apenas me ajudou a esconder na frente das câmeras um lado da minha personalidade que eu tinha medo de revelar para todo o país... Medo da rejeição, medo do preconceito. Eu sou lésbica, e sempre fui assim."

O espanto das poucas pessoas na platéia foi suficiente para ser gravado em alto e bom som por todos os microfones. Atônito, o apresentador procurava em suas fichas alguma pergunta que pudesse emendar após a declaração da jovem modelo, falhou miseravelmente e aguardou alguma instrução através do ponto eletrônico, que no final das contas virou uma chamada para os intervalos comerciais. Juliana não conseguia pensar em mais nada, e saiu sorridente do palco, certa de que tinha mudado sua vida para sempre, abandonando um esteriótipo para agora ganhar novos rótulos. Pelo menos estes eram alguns com os quais ela acreditava ser capaz de conviver.

Escrito por Bart Rabelo | 0 comentários(s)


17.1.07

Recordar é viver: "Sobre comida e relacionamentos"

Escrevi o texto abaixo em Outubro de 2005. Como agora estou fazendo uma dieta de carboidratos (low carb), foi impossível não lembrar dele.

Ah, e a dieta de um ano e três meses atrás não deu certo, só ganhei mais peso. Isso te faz pensar...


Entrei numa onda light. Diet, fat free, low carbs, e todos os outros termos em inglês que se possa usar para uma expressão brasileira bastante comum: está na hora de perder banha. Fui ao supermercado comparar informações nutricionais, preços e marcas. Acabei comprando bastante coisa. Ao invés de salame italiano, mortadela de frango. Ao invés de maionese, maionese sem gordura (e sem gosto). E para substituir as deliciosas macarronadas, pão light. Era só o que me faltava.

Pior ainda foi a tentação que sofri ao passar na seção de frios, quando um pacote de Copa ficou olhando pra minha cara e dizendo "me leva pra casa, garotão". Logo em seguida um belo pedaço de queijo gorgonzola parecia sussurar "me come, me joga na parede, em cima da pizza, me chama de muzzarela". Olhei para o queijo com bastante carinho e afeto, porém quem acabou na minha mão foi o insosso queijo minas. Light.

Chegando em casa, decidi que o primeiro passo seria guardar os "alimentos" (note-se as aspas) na geladeira. Seria uma hora difícil, mas não dava pra adiar. Abro a porta e lá está ele, meu companheiro de casa, amigo, confessor das horas noturnas avançadas e a única criatura viva com quem aceito de bom grado compartilhar o que chamo de "lar". De todos os solitários no mundo, apenas ele, em sua estranha aparência, seria capaz de me entender:

Um queijo Parmesão que virou Roquefort.

- Olá queijo.
- Buon giorno, signori!
- Já te disse para abandonar esse sotaque italiano...
- Desculpe monsieur, às vezes esqueço que virei Roquefort.
- Maravilhoso o processo de transformação ao qual um queijo pode passar, não?
- Você parece nervoso, mon amie. Aconteceu algo?
- Hum... Não sei como vou te contar isso.
- Apenas fale, mon amie. Pode desabafar.
- Estou de dieta.
- Non...
- Sim. E estes aqui serão seus novos colegas de quarto. Conheça a Maionese Light, a Margarina Light, a Mortadela Light, o Hamburguer Light, o Refrigerante Light...
- Espere, espere... Eles são todos da mesma família? Pois tem o mesmo sobrenome!
- Não... Isso significa que eles tem poucas calorias, e menos gordura.
- Mas comida que não engorda não é divertida!
- Eu sei.
- Com quem vou conversar, me divertir quando você estiver trabalhando, monsieur?
- Eu trouxe sua prima, Ricota.
- Ricota? Mas ela não tem graça nenhuma, é uma chata! Qualquer um enjoaria dela em questão de minutos!
- Sim, isso é verdade.
- Por acaso você me consultou antes de fazer isso?
- Mas é preciso, Roquefort. Minha namorada já está reclamando.
- "Aquelazinha"? Você não precisa dela, eu já estou em sua vida!
- Sinto muito... Acho que é o fim para nós dois.
- O que você está fazendo? Vai me jogar na lixeira, acha que é fácil assim terminar um relacionamento?
- Desculpe, se você não é capaz de me compreender, já não há mais espaço pra você na minha vida...
- O lixo não, o lixo não!!!...

É difícil dormir com um peso tão grande no coração. Amizades vem e vão, mas as pessoas não deveriam confundir tanto as coisas. Adeus Parmesão-Roquefort... Adeus, meu bom amigo.

Escrito por Bart Rabelo | 0 comentários(s)


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