28.8.06

Crônica aleatória: "Um Funeral"

Quando tinha apenas oito anos de idade, José caiu de sua bicicleta e rolou por um barranco. Quebrou a perna esquerda e os dois braços. Ele pensava que aquele tinha sido o pior dia de sua vida, e que nada poderia ser tão ruim como rolar morro abaixo como um embrulho imprestável. À medida que os convidados se aproximavam, sombrios e enegrecidos pelas roupas pretas, José se perguntava se tudo não era apenas um sonho. Seu pai na verdade ainda estava vivo, ali do lado dele, fumando um fedorento charuto de origem duvidosa e relendo incansavelmente todos os livros de sua vasta biblioteca.

A senhora Araújo foi uma das últimas a chegar. "Meus pêsames", dizia ela, enquanto forçava lágrimas a escorrerem por suas bochecas enrugadas. Era quase certo que essas lágrimas foram produzidas por um colírio, estrategicamente aplicado logo antes da velhinha entrar na casa funerária. José não considerava isso como algo ruim - sempre soube que seu pai não era nem um pouco querido pela vizinhança, e só conseguiu manter duas amizades ao longo de toda a vida: o senhor Lemos, seu eterno parceiro nas partidas de bocha, e Valtinho, dono de um pequeno sebo no centro da cidade, com quem trocava livros avidamente.

"Obrigado, sim obrigado... Sim, foi uma perda muito dura... Obrigado, sim, ele fará falta". A verdade é que tudo isso era mentira; a mãe de José faleceu cinco anos antes, de câncer. Filho único, agora órfão, ele já tinha uma vida bem construída. Era casado com Eleanor, uma moça bonita e inteligente, que lhe dera dois filhos lindos, um casal de gêmeos idênticos. Os dois eram a cara do pai. José achou que não era conveniente que crianças apenas cinco anos de idade presenciassem o funeral do seu avô, e pediu para que sua esposa ficasse em casa com os meninos. Ele tinha certeza de que seria capaz de levar os procedimentos para a despedida de seu pai adiante, sem problemas.

Isso, claro, até ler as instruções deixadas pelo velho.

O ar-condicionado estava ligado no máximo, porém gotas enormes de suor escorriam pela testa de José. Com todos os convidados acomodados na pequena câmara, chegou finalmente o fatídico momento no qual despejaria seu discurso. Procurou a saída de emergência do local, soltando um suspiro quando percebeu que ela ficava no lado oposto da sala, deixando cerca de trinta convidados entre ele e sua rota de fuga mais provável.

"Bem, obrigado pela presença de todos aqui. Meu pai teria gostado muito, de verdade. Como vocês sabem, ele era um homem de gostos excêntricos, e deixou sua última vontade por escrito, com o nosso advogado. Curiosamente, este documento foi preparado vários meses antes dele falecer". Fez uma breve pausa para avaliar a reação dos convidados, que passivamente já tinham concentrado sua atenção nas palavras frias e sem emoção de José. "Ele deixou escrita apenas uma frase, e ela é: 'quero que meu funeral seja igual à forma como eu morri'." Todos se entreolharam, curiosos, pois era notoriamente sabido que o velho morreu por causa de um enfarto fulminante.

"Acontece que meu pai teve um ataque do coração. Acho que todos já sabem disso," e os convidados balançavam a cabeça afirmativamente. "O que vocês não sabem é 'onde' ele teve esse ataque, e muito menos 'como'. Meninas, podem entrar" disse, José, aguardando sua instantânea crucificação. Duas mulheres bonitas, uma loira e uma morena, na casa dos vinte-e-poucos anos e bem vestidas, entraram no salão funerário, uma delas carregando um aparelho de som à pilha. Elas se posicionaram no centro da sala, à frente do caixão de madeira escura, e uma delas se abaixou para ligar o som. Logo o som pesado e contundente de um blues à moda da "escola antiga" preencheu o local, e as duas iniciaram uma dança lenta, porém vigorosa.

A senhora Araújo soltou um grito de pasmice, quando a loira tirou sua blusa, e deixou cair na cabeça de um convidado. O senhor Lemos vibrou de emoção quando a morena desceu a saia na sua frente, revelando uma calcinha cor-de-rosa bastante sensual. Uma por uma, todas as peças de roupa das dançarinas foram removidas, até que só sobrassem cinco convidados no salão para ver o espetáculo, todos homens (os outros foram praticamente arrancados dali por suas esposas). José não estava mais ao lado do caixão do pai, e sim na segurança de seu carro, onde graças a um filme bem aplicado nos vidros, ninguém era capaz de vê-lo chorar. A conta do enterro do pai seria alta, porém a dívida que o velho deixou no clube de strip-tease era bem maior.

Escrito por Bart Rabelo | 0 comentários(s)


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