Sobre a necessidade de se despedir

Este texto tem um cunho pessoal muito forte e não vejo outra forma de começá-lo sem dizer que em 2016 eu já passava por um processo depressivo bastante grave, por vários motivos que não precisam ser expostos aqui, talvez sendo mais adequados para uma sessão de psicoterapia ou uma mesa de bar com amigos e amigas queridos.

E é justamente onde isso começa. Na cidade de Niterói eu sou de certa forma reconhecido por, bem... Não há outra forma de dizer isto: muito nerd. Mas conforme fui envelhecendo, a coisa foi mudando de forma, pois agora eu sou um "nerd das antigas". Comecei a jogar RPG em 1993 com 14 anos, viciei rápido. Fui para o Magic (jogo de cartas) em 1995, com 16 anos. Como a gente costuma dizer, "ganhei bastante XP".

Muita gente me conhece e me reconhece na rua com frequência, talvez por que eu sempre fui "aquela" pessoa com paciência para ajudar novatos em jogos como Magic e RPG, talvez por que eu saiba a pergunta fundamental para a vida, o universo e tudo mais. Isso é discutível. Infelizmente nem sempre lembro do nome de todo mundo, apesar de ser conhecido também pela minha boa memória. Mas é muita gente, muitos nomes, muitos rostos. E eis que num dia desses aleatórios, lá no início de 2016, dois conhecidos meus vem me dizer que uma "cafeteria geek/nerd" abriria em Niterói, pertinho de onde eu moro, com a proposta de ser também um espaço para jogos (a.k.a. "luderia").

Pensei com meus botões: "que absurdo, como uma coisa dessas aconteceu na MINHA cidade sem eu saber ou permitir?!?!" Decidi ir nesta tal cafeteria logo após sua abertura para "aprovar" o local e ver se conhecia qualquer um dos donos, mesmo que fosse de vista. Quem já se envolveu com Niterói sabe que a cidade é terrivelmente provinciana e uma espécie de Triângulo das Bermudas Social no qual todo mundo se conhece, ou pelo menos tem uma versão bizarra do "Número Bacon" onde o resultado para todos é sempre zero ou um.

A primeira impressão da tal cafeteria foi incrível. Admito, fui lá pra julgar mesmo e ao invés disso fiquei maravilhado com a decoração do lugar. Desde a escolha da palheta de cores da casa, num agradável verde escuro, vendo o logo do dragão cuspindo fogo, passando por toda a memorabília e referências geek até o nome: "Dice'n'Roll Coffee Tales". Mal sabia que estaria assinando um atestado de que aquele viria a ser meu lugar favorito na cidade, em todos os tempos.

O acolhimento que ganhei dos sócios-proprietários do empreendimento talvez tenha sido o principal. Para provar que a minha teoria sobre o "Número Bacon" de Niterói é real, dois deles haviam estudado na escola com a minha então esposa. A outra sócia não, mas como ela também é carioca e suburbana, a gente se deu bem imediatamente.

Dos sócios desta pequena e corajosa cafeteria geek, ganhei não apenas um refúgio ou segundo lar, mas amizades maravilhosas que me ajudaram demais nestes últimos anos que foram tão difíceis. Pois eles são pessoas incríveis, as quais hoje me orgulho em dizer que são amigos de verdade (um deles virou até baixista da minha banda, mas isso é uma história para ser contada com mais rock'n'roll e cerveja). Estamos quase completando 3 anos deste grande círculo de amizades e histórias incríveis que a "Dice" proporcionou. Mas e a minha depressão, mencionada lá no início do texto, você perguntaria? Será que minha cabeça fritou ao ponto de não fazer mais sentido?

Eu melhorei. Antes disso piorei muito, tipo chegar ao fundo do poço mesmo, com uma pá para cavar mais ainda. Mas com a ajuda de amigos, alguns familiares e o apoio médico e terapêutico correto, melhorei. E ao longo de toda esta minha batalha ferrenha contra uma doença invisível e mortal, havia um tema em comum: a "Dice". Fosse para tomar um café de manhã (o que farei logo após terminar de escrever isto aqui), jogar cartas com amigos, descobrir novos jogos de tabuleiro interessantes ou até mesmo sentar no balcão para jogar papo fora.

Esta cafeteria que daqui a uma semana encerrará definitivamente suas atividades foi um lugar onde fiz muitos amigos e amigas que hoje me são queridos demais. Gravamos matérias para jornais e televisão, fizemos eventos, arrecadações, reuniões, festas e viagens. Rimos muito, choramos (por quê não?), nos expressamos da forma mais honesta e sincera possível.

Lá eu me diverti bastante, mas também sofri, seja por ter enfrentado situações difíceis ou ter trazido pessoas para a minha vida que mais ajudaram do que atrapalharam. Mas o saldo é positivo, sempre muito positivo, pois o bem praticado e aplicado pelas pessoas que fazem parte desta grande família é muito maior do que qualquer coisa negativa que a vida queira jogar na minha direção.

Se não fosse por estas pessoas, por estes amigos e amigas tão incríveis, por este sentimento de união e congregação num lugar tão carinhoso e acolhedor, não sei como estaria hoje em dia. Meu falecido avô Ernani uma vez me disse: "se você não tiver nada de bom pra falar de alguém, não fale nada. Se tiver algo de bom para falar, então faça isso sempre que puder." Pode parecer uma lição de moral simplista ou óbvia, mas é estarrecedor como a gente não tem mais o hábito de elogiar gratuitamente as pessoas que apreciamos nas nossas vidas.

A toda a família da Dice'n'Roll Coffee Tales: muito obrigado.

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