24.11.14

Monstros

Hoje vou contar um conto que poucos conhecem, ou pelo menos eu não consigo lembrar quem já ouviu. É a história real de como eu não virei um estuprador.

Eu tenho a convicção pessoal de que todo ser humano tem um monstro dentro de si. O meu é um monstro de raiva e cólera - do tipo que você segura por muito tempo, mantém enjaulado e quando ele se solta, é um caos completo. Quem já me viu perdendo o temperamento sabe do que estou falando - eu costumo chamar meu monstro de "Raiva Vermelha". Entretanto, a partir do momento no qual você conhece suas falhas, aprende a domá-las: eu nunca reagi com violência contra uma pessoa mais fraca, indefesa, uma criança, mulher ou idoso.

Na verdade até hoje só reagi de forma violenta contra violência, uma tentativa de assalto ou agressão vinda de terceiros. Então eu me seguro bastante e assim nunca me tornei um homem intrinsicamente violento. Mas a Raiva Vermelha está lá dentro, esperando para ter seus limites testados. Pedindo para sair. Pedindo para alguém dar o primeiro soco, o primeiro empurrão.

Acho que eu estava no terceiro período da faculdade. Uma caloura tinha bebido demais ao longo do dia (cortesia dos barzinhos no entorno da universidade) e foi para o centro acadêmico deitar no sofá e descansar. Eu estava lá também descansando, pois tinha aulas de manhã e de noite, então fazia mais sentido ficar na faculdade o dia inteiro. Era final da tarde.

Os dois amigos da menina que a trouxeram perguntaram se eu tinha a chave da porta do centro acadêmico e eu disse que não. Então eles propuseram: encostar a porta pra poder "brincar" com ela. Achei que tinha ouvido errado e pedi confirmação. Era aquilo mesmo. Então mandei os dois saírem imediatamente, o que levou um deles a sugerir que "eu não ia me divertir sozinho".

E aí veio a Raiva Vermelha.

O pessoal que trabalhava na xerox ao lado veio ver o que estava acontecendo e sinceramente não lembro direito. Só sei que estava agarrando um dos caras pela camisa quando separaram a gente. Eles saíram de fininho. Pedi pro pessoal vigiar a garota e comprei uma lata de refrigerante pra ela dar uma "glicosada". Quando a menina ficou menos grogue, expliquei o que aconteceu. Ela usou um telefone público (nem todo mundo tinha celular naquela época), desceu pelos elevadores e foi embora.

Encontrei com a garota mais uma série de vezes nos corredores da faculdade. Ela não parecia querer falar sobre o assunto e nunca mais voltou ao centro acadêmico, assim como os agressores dela, os quais eu sempre recebia com um olhar frio. Hoje sei que deveria ter gritado mais, feito um escarcéu, denunciado aqueles dois vermes de alguma forma.

A melhor forma de evitar um crime é impedir que ele aconteça. O estupro e outras formas de violência contra a mulher só continuam ocorrendo pois existem homens que querem cometê-los. O culpado é o agressor, sempre. O que eu fiz naquela tarde horrível, da qual pouco me lembro, foi impedir um crime em andamento. E admito que não falo sobre o assunto pois infelizmente terei que sempre viver com a culpa por não ter de alguma forma denunciado ou punido aqueles dois rapazes com monstros bem mais perigosos que o meu.

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