1.7.14

A Zebra Zureta de 2014

Chegou a Copa do Mundo de 2014 e automaticamente o evento no Brasil se tornou o assunto mais falado em toda a história da internet, além de ser obrigatório em qualquer mesa de bar, encontro de amigos, reunião no trabalho. O país e o mundo inteiro vivem, respiram futebol. Até os tímidos EUA, sem tanta tradição no esporte, começam a desenhar uma torcida mais animada, inspirados no time "matador de gigantes" que no mesmo Brasil em 1950 registrou a maior "zebra" de toda a história do futebol mundial, ganhando a então toda-poderosa Inglaterra por 1 x 0 com um time semi-amador numa tarde ensolarada em Belo Horizonte.

E obviamente o assunto da Copa no Brasil tem, novamente, sido as "zebras", como eu disse outro dia numa matéria para o Globo News. Ainda estamos nas oitavas-de-final, mas se os pequenos Davi não derrotam os Golias, tem dado trabalho. Muito trabalho. É a Colômbia se tornando destaque, a Costa Rica saindo vitoriosa do "grupo da morte" eliminando Itália e Inglaterra, a Argélia e Suiça mostrando bom futebol, o México endurecendo contra o Brasil e quase eliminando a Holanda. Sem falar do Chile. Que time! Pode escolher à vontade - as zebras estão soltas.

Mas por quê justamente agora? Justo no Brasil?

Na minha opinião a culpa é clara: do Barcelona.

(Calma, calma. Pronto, se acalmou? Está mais calmo? Respirou fundo? Pode continuar lendo.)

Entre 2009 e 2012 o Barcelona (e por consequência a Seleção da Espanha) dominou o futebol mundial com um estilo de jogo lindo, elaborado, cheio de passes, domínio de bola e trabalho milimétrico para gerar alguns dos gols e jogadas mais belos já vistos em toda a história. O famoso "Tiki-Taka" da academia de La Masia. Entretanto, nos últimos dois anos o Barcelona decaiu muito, parou de ganhar tantos jogos com facilidade, passou a depender ainda mais da habilidade individual dos seus principais jogadores, que se não estivessem em um dia inspirado, não ajudavam muito.

O problema é que os outros times aprenderam a jogar contra o Barcelona. Os times ficaram mais compactos, dando menos espaço para a troca de passes livres, aplicaram grande foco no preparo físico dos jogadores, de modo que eles pudessem correr mais e se movimentar mais para compensar a falta de habilidade natural com a bola nos pés. Se um jogador excepcional perde um passe, um jogador medíocre está logo ao lado para recuperar a bola, jogar pra frente e armar um contra-ataque veloz e furioso. A aplicação tática e defensiva foi aumentada também, nós hoje vemos defesa com jogadores melhor posicionados, laterais com maior potencial defensivo e tático do que ofensivo, e principalmente, volantes habilidosos que sabem o quê fazer com a bola nos pés - não os vulgos "cabeças-de-área" (ou "cabeças-de-bagre") com os quais estamos acostumados aqui no Brasil, nada mais do que zagueiros que jogam mais avançados.

E por quê isso ficou claro justamente na Copa do Mundo e não nos campeonatos nacionais e regionais?

Os grandes clubes no mundo inteiro já sabem disso. Quando você assiste uma Copa dos Campeões da Europa, um campeonato inglês, alemão ou espanhol, já percebe que tudo o que eu disse aqui é prática comum. E sabe quem se beneficia disto? As seleções nacionais. Muitos jogadores destas seleções de "segundo" ou até "terceiro" escalão que estão surpreendendo na Copa 2014 jogam nos times que já tem este tipo de preparação em mente e implementada. E tem grande mérito também seus técnicos, que finalmente aprenderam com a história.

Brasil, Itália e Alemanha detem entre si 12 títulos mundiais, deste os 19 já disputados até agora. É um assombro! 63% dos títulos mundiais divididos entre apenas 3 nações. E sabem o quê as três tem em comum? Em todos os títulos que ganharam, o fizeram com times com grande aplicação tática, foco defensivo. Estes três times tem o melhor histórico defensivo das Copas do Mundo e para completar, vjeam que interessante: em 1998 a França só tomou 2 gols, assim como a Itália em 2006 e a Espanha em 2010. A Espanha, com seu Tiki-Taka!!!

Não tomar gols em um torneio rápido e voraz como uma Copa do Mundo é tão importante quanto fazer. E as seleções "pequenas" perceberam isso. Defender, contra-atacar, marcar, fazer faltas táticas, aguentar firme até o final do jogo. Essa é a fórmula do sucesso e não podemos tirar o mérito deles por terem chegado a uma conclusão simples: não são "zebras" que estão aparecendo no Brasil em 2014. São apenas times eficientes que aprenderam a jogar contra os "melhores" de igual para igual.

E eu estou amando muito tudo isso. Cada minuto, cada jogada.

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