28.8.13

Sebo

Todos os dias João ia para o trabalho e passava em frente a um sebo.

As prateleiras da pequena loja eram tão velhas que pareciam despencar sobre elas mesmas, apenas sendo suportadas pelo peso da enorme quantidade de livros que as povoavam. Apesar de sentir de perto o cheio das emboloradas e amareladas páginas, ele nunca teve tempo para entrar e ver os volumes de perto. Com total sinceridade, ele nunca teve interesse em fazer isto.

Um certo dia qualquer ele seguia sua rotina de passar em frente ao local, quando viu um mendigo, vestido com roupas velhas e sujas, dentro do sebo. Imaginou que o homem tinha uma aparência tão antiga e mofada quanto o ambiente que o cercava. Então percebeu que este homem pegou um livro e sorrateiramente colocou debaixo da camisa.

"Um ladrão", pensou. Imediatamente, como qualquer bom cidadão, entrou com velocidade no sebo e evitando o conflito direto, procurou alguém que ali trabalhasse. Viu um senhor de idade avançada sentado num canto, manuseando algumas páginas velhas de um volume com capa de couro. Pigarreou e depois disse em voz baixa: "Não quero te alarmar, mas aquele homem ali está roubando um dos seus livros."

O leitor levantou os olhos até João por cima dos óculos de leitura e em seguida na direção ou mendigo. Com uma voz calma ele respondeu: "Eu sei, obrigado por avisar." João achou aquilo muito estranho. "Como assim, você não vai fazer nada? Ele está te roubando!"

Então o senhor se levantou da cadeira e novamente respondeu com serenidade: "Há alguns anos atrás este homem passou a morar embaixo de uma marquise, não longe daqui. Um dia ele veio e roubou um livro. Eu o segui e vi que ele sentou no seu canto de refúgio e começou a ler o livro para um cachorro vira-lata que o acompanha. Desde então ele faz isso toda semana, vem aqui e pega mais um livro."

"E o senhor simplesmente o deixa roubá-lo assim?" disse João indignado. "Sim, eu deixo. Todos os dias passa tanta gente na frente do meu sebo e nem percebe que nós existimos. Ele pelo menos está lendo os livros."

A partir de então, todos os dias João foi para o trabalho e passou em frente a um sebo. De vez em quando ele comprava um ou dois livros.

Um comentário:

Newton Silva disse...

Belo conto. Muito comovente. Os sebos são um lugar mágico que quase ninguém percebe.