23.11.12

Advogados...

Chego num prédio, apresso o passo para pegar o elevador. Um advogado já está dentro dele, faz contato visual comigo, percebe que estou me apressando para pegar o elevador, mas não faz menção de segurar a porta.

Ela começa a fechar. Eu corro mais ainda e seguro a porta, dando um tapa sonoro e forte nela quando já estava quase fechada. Aperto o botão do meu andar. O advogado vira pra amiga dele e fala rindo: "então, acho que no Brasil faltam heróis."

Eu viro pra ele e balançando a cabeça de forma negativa falo: "fucking lawyers..." Ele fica meio chocado. Eu saio. Ele fica sem resposta.

Ser passivo-agressivo em línguas estrangeiras é divertido, crianças. Eu recomendo.

19.11.12

Um Belo Sorriso


Aquela menina tinha o sorriso mais lindo do mundo. Por todos os lugares pelos quais ela passava, todos se animavam com seu sorriso iluminado, que trazia alegria, paz e uma sensação de plenitude em si.

Era o tipo de sorriso capaz de banir o estresse cotidiano de quem pegava ônibus com ela todos os dias de manhã. Que cativava amigos e deixava todas os meninos suspirando pelos cantos. Alguns diziam que seu sorriso era largo como o mundo, mas isso era mentira - ele cabia apenas no espaço do rosto da menina, comprimido e limitado por suas bochechas.

Seu sorriso era digno de ser desfilado em parada nacional todos os dias e já havia sido gravado para um programa de televisão. O produtor decidiu no fim das contas não incluir as cenas na edição final, com ciúmes de que o mundo inteiro conhecesse um sorriso tão lindo e tranquilizante. Gravou a fita e levou para casa, com o objetivo de tê-lo apenas para si.

O que poucos sabiam era que todas as noites, quando a menina chegava em casa, ela sentava à mesa, colocava as mãos na cabeça e suas lágrimas apagavam o sorriso desenhado com caneta do rosto.

12.11.12

Os Monstros Existem

Vou compartilhar um segredo com o mundo: os monstros caminham entre nós. Para piorar ainda mais a situação, eles são invisíveis.

Eles espreitam em cada esquina, vigiam todos os nossos movimentos. Tem garras longas e dentes afiados, dentro de bocas curvadas em sorrisos maléficos e cruéis. Seus corpos são cobertos de pelos ensebados e que poderiam brilhar à lua da lua, se eles não fossem invisíveis.

Os monstros estão do nosso lado quando acordamos de manhã e vamos para a escola, para o trabalho. Na hora do almoço nos aguardam escondidos em cada canto dos restaurantes. Também estão olhando quando chegamos em casa de noite e tomamos um banho, ou lemos um livro.

Um curioso fato amplamente desconhecido sobre os monstros é que eles gostam que nós continuemos com nossas rotinas, dia após dia. Mas ao mesmo tempo odeiam serem ignorados. A única função deles no mundo é inspirar o medo e horror, causar o pânico e a desordem, pois é disso que se alimentam: os nossos sonhos partidos, desejos frustrados, amores esquecidos. Algo sempre deve existir antes que possa ser destruído.

Talvez o aspecto mais importante sobre os monstros é que eles não ficam invisíveis para sempre.

Mas para enxergá-los, é necessário primeiro acreditar que eles existem.

5.11.12

Dançando na Câmera


Algumas pessoas me perguntam por quê eu costumo andar na rua no modo "autista", ou seja, com fones de ouvido e ignorando tudo ao meu redor. Eis um bom motivo.

Hoje saí pra almoçar e esqueci meus fones na mesa. Sentei ao lado de duas mulheres completamente desconhecidas e não deu para não ouvir a conversa delas, pura fofoca de escritório, que eventualmente chegou a este ponto:

- Mas vem cá, a Fulana já conseguiu emprego, está fazendo alguma coisa?
- Está sim menina. Ela está dando aulas de dança pela internet de noite.

HUM. Ou aquelas mulheres são inocentes demais, ou eu tenho a mente muito suja e a única dança que consigo imaginar a Fulana desconhecida dando é de "dancinha na boquinha da garrafa" para homens adultos via internet e webcam?

Então me consultei com um amigo que já foi professor de dança e realmente entende do assunto. Ele disse que é muito incomum e pouco válido, mas que sim, existem pessoas que dão aulas de dança pela internet.

Devo eu acreditar na inocência humana, ou sou hipócrita demais para isso?