27.2.12

Sobre auto-censura

Cá estava eu, rumo ao post número 200, quando lembrei de uma coisa: até alguns anos atrás, eu escrevia crônicas e colocava aqui no meu blog. Achava uma forma divertida e interessante de compartilhar meu trabalho.

Hoje em dia eu tenho medo e vergonha. Medo do plágio, da infração de direitos autorais. Não que meus textos sejam dignos de serem plagiados, mas são meus e eu tenho certo carinho por eles. Por outro lado, iniciei uma revisão de todas as crônicas, o que basicamente abriu meus olhos. Cacete, como eu escrevia mal. Tanto erros, tantas incoerências.

As falhas persistem até hoje, mas particularmente em 2004 e 2005 elas estavam lá com uma frequência assustadora, sendo esfregadas na cara do mundo. Não imagino que alguém hoje em dia leia aqueles textos antigos, mas caso isso ocorra, minha cara pararia no chão. Então decidi remover 10 crônicas do meu blog e estou revisando as mesmas para um projeto. Nem todas devo reaproveitar neste trabalho, mas acrescido do que venho escrevendo, espero ter boas notícias em breve.

E agora, um caminho mais longo rumo à barreira do 200º post.

22.2.12

Por quê não gosto mais do facebook

Como disse ontem, causando certo horror, apreensão e preocupação, estou de saco cheio do facebook. Na verdade, estou de saco cheio de um monte de coisas, mas não consigo me livrar de todas com facilidade. Antes que venham me perguntar, não, eu não pretendo fazer "facebookcídio", como há alguns anos atrás era comuns as pessoas dizerem que fizeram "orkutcídio". Isso é estúpido, primeiro porque caso sua intenção seja manter a privacidade dos seus dados, já os perdeu - o facebook e a Google guardam todos os dados de quem se inscreve nos seus sites e programas. Em segundo lugar, se a sua intenção ao apagar um perfil em rede social é evitar que as pessoas "fuxiquem" sua vida, bem, tenho novidades para você - as pessoas só buscam saber o que você mesmo compartilha com elas. Se você ficar quietinho, caladinho no seu canto, ninguém vai ficar sabendo.

O facebook é uma rede social, na qual você mantém contato com seus amigos e conhecidos. Oh, nenhuma novidade. Até agora, é só mais uma rede social - não tenho nada contra este princípio, o problema é que o facebook tende a criar uma "rede dentro da rede", um novo ambiente no qual a sua participação, as suas idéias, a sua presença, os seus dados pessoais e profissionais, são a verdadeira moeda. Anotem o que estou falando, daqui a pouco o tal do "facebookmail" (que ainda não colou) será transformado em pré-requisito para usar alguma funcionalidade nova do site, sendo integrado ao chat online. Uau, que novidade, não?! Quem tiver o mínimo de visão lembrará que o e-mail da Google é integrado ao chat online da Google que são integrados a qualquer programa ou site da Google. O velho e bom combo do Gmail + Gtalk, na estrada desde o quê, 2005? 2006?

Não lembro direito, pois parece que foi há uma eternidade. Seis ou sete anos. E o que nós fizemos neste tempo todo? O quanto construímos? De lá para cá eu me mudei de cidade, casei, troquei de emprego, aconteceu muita coisa na minha vida. Entretanto olhando para trás, nenhuma, absolutamente nenhuma dessas coisas boas tiveram o "dedo mágico" de uma rede social, seja o orkut, o facebook, etc etc. Aliás, pelo contrário, a rede maravilhosa de compartilhamento de informações que nos é oferecida hoje é sim algo próximo do mágico: dados voando na tela, milhares de rostos e pessoas flutuando à sua frente, memes, muitos memes, as mesmas piadas sendo contadas um milhão de vezes, à exaustão. E para piorar, temos as pessoas.

Acho que uma das coisas mais legais de manter real e verdadeira interação social com o mundo é que você passa a conhecer as pessoas de verdade. Alguns argumentarão que antigamente havia correspondência por correio, o que inegavelmente, era uma boa ferramenta. Mas naquela época quem se dignava a pegar a caneta, pena ou máquina de escrever, não materializava apenas dez ou doze linhas de informações. As pessoas realmente escreviam cartas, contando sobre como a vida estava, explicando um assunto em comum, argumentando, discutindo. Lembro que quando comecei a usar e-mail, ainda tínhamos esta mentalidade: escrever o que realmente deve ser escrito, e e-mails eram longos! Já hoje, nos satisfazemos com duas ou três linhas, é suficiente - você só quer que aquele pequeno filamento de informação chegue ao "outro lado".

As redes sociais estão estrangulando nosso convívio social verdadeiro, ao invés de dar vazão para o mesmo. O mundo está veloz demais, rápido demais, ocupado demais e nós, sem tempo para os amigos e família. Elas criam relacionamentos delicados, construídos em papel fino, não em madeira ou concreto. E é neste ponto que você começa a se decepcionar com as pessoas. Ao receber as opiniões de todos, sem qualquer discrição ou filtro, você acaba descobrindo que algumas pessoas na verdade não são tão próximas de você do que imaginaria. Antes das redes sociais, esta pessoa estaria na sua frente, falando o que ela disse, talvez com outras olhando. Será que ela teria coragem de falar realmente tudo o que pensa? Será que o medo da repreensão social não faria com que ela pensasse duas vezes antes de entrar numa discussão, independente dela ter a razão ou não?

O facebook está deixando as pessoas mais corajosas, desinibindo-as para falarem sobre o que quiserem. Aí vemos comentários preconceituosos, racistas, sexistas, fascistas, etc. E quem gosta de uma boa discussão, de uma argumentação acalorada, acaba mordendo a isca. Isto só pode levar a um caminho: a procrastinação. Aqueles que se deixam envolver demais pelo fascínio brilhante das redes sociais, como uma mariposa pela lâmpada, acabam dando mais importância a um site na internet do que aos seus relacionamentos, aos seus projetos pessoais, muitas vezes ao trabalho, reduzindo o rendimento e produtividade.

Não vou apagar meu perfil. Não vou bloquear as pessoas, removê-las da minha "persona virtual". Mas deixo meu conselho: vivam menos no facebook e passem mais tempo com suas próprias vidas. Desta forma menos gente te decepcionará, incluindo você mesmo.

15.2.12

E o humor brasileiro?

Já faz um bom tempo que o humor brasileiro apenas atinge as manchetes por motivos não tão engraçados. Uma piada politicamente incorreta ali, outra racista aqui. Talvez um comentário danado de infeliz, salpicado de malícia e um pouco de falta de noção. Enfim, o quê diabos está acontecendo de errado com o humor brasileiro?


Nada. Nós sempre fomos assim, a diferença é que com o mágico avanço da internet, a quantidade de multiplicadores e opinião e críticos aumentou avassaladoramente. Antes todo mundo só comentava sobre o esquete novo do “Zorra Total” ou o antigo de “A Praça É Nossa”. Voltando mais ainda no tempo, lembremos de esquetes do Chico Anysio, do Jô Soares, dos Trapalhões, as piadas do Ary Toledo, do Juca Chaves e do saudoso Costinha. Poderia ir além, mas vejam bem, eu nasci em 1978.

As piadas são as mesmas. Os humoristas são os mesmos. O povo brasileiro continua dando atenção para as mesmas piadas sexistas, racistas, violentas, de mau gosto. Entretanto hoje, ao invés delas serem coadjuvantes para o talento excepcional de poucos, são o prato principal da maioria. Quando criança, lembro com clareza das mordazes e corajosas piadas sobre políticos do Chico Anysio. Entretanto, para chamar a atenção de muita gente, ele precisava colocar em seu programa uma ou outra gostosona com roupas curtas e apertadas.

Antes alguém poderia dizer: “quer ver mulher pelada? Vai ler a Playboy!” Era verdade. Hoje a coisa é maior ainda. “Quer ver mulher pelada? Entre no Google.” O mercado de pornografia e nudez na internet é tão farto quanto gratuito. Então não ajuda muito que os comediantes usem o velho artifício da mulher gostosa pra chamar atenção, não é? O que sobra para eles?

Serem polêmicos.

Quando mais audiência damos para pessoas que usam a muleta da polêmica para sustentar suas carreiras, mais nos rebaixamos. E muitos destes humoristas descobriram seu grande filão e público justamente entre os internautas, que os amam à mesma velocidade que os odeiam, quando falam algo de seu desagrado.

Não sou contra esta estratégia, acho inclusive muito válida, para quebrar os paradigmas convencionais da ditadura da mídia vigente no Brasil. Isso não significa que eu admire estas pessoas e muito menos que apóie o que elas dizem. Mas há de se admirar que, com tanta gente batendo palmas ou vaiando cada um dos seus gracejos públicos, que poucos tenham percebido que eles usam a velha e boa estratégia do “bem ou mal, mas falem de mim”, dando a entender que não queriam isso em primeiro lugar.

14.2.12

8 na fila e bola pra frente

Estava pensando hoje se estou realmente reconstruindo uma comunidade. Não, não é essa a palavra certa, na verdade é uma platéia. É claro que eu gosto de audiência. Todo mundo quer sentir o mínimo de importância e para isso hoje em dia temos números. Dos meus outrora 50 seguidores aqui no blog, não creio que um quinto realmente lesse o que escrevo, mas ainda assim, o número é reconfortante.

800 amigos no Facebook. 140 seguidores no Twitter. 420 amigos no Orkut. 50 seguidores no Blogger. 150 no Google Plus. UAU. Isso deve significar muita coisa, olha a quantidade de gente que presta atenção no que eu falo, em quem eu sou.

Não, isso não é verdade.

Há alguns meses atrás coloquei uma foto no Facebook uma foto da minha toalha molhada, pendurada após o banho e que parecia uma imagem do E.T. do Spielberg (é bom especificar, hoje em dia nosso imaginário tem mais alienígenas do que somos normalmente capazes de lidar). Não lembra? Não viu? Confira aqui:

Legal né? O próximo padre que achar uma imagem da virgem
Maria numa torrada vai ter que repensar seus conceitos.

29 pessoas curtiram isso, em Junho de 2011. Várias pessoas comentaram. Destas 29 que realmente clicaram num botão para expressar seu contentamento com a imagem sacra do E.T., apenas uma eu não conheço pessoalmente (mas acredito que pode ser realmente uma boa pessoa, pois é amiga de outra que o é com certeza). 5 dias depois ninguém mais comentou, ninguém mais lembrava da foto, da piada.

Nossas piadas, nossos humores hoje em dia são tão rápidos e descartáveis quanto um clique no mouse. Eu vejo, eu gosto, eu curto, eu compartilho e ponto final. Pode ser que encontre novamente este pedaço de informação, solto na web, numa linha temporal do Facebook, num tweet despretensioso ou numa comunidade do Orkut (há alguns que ainda tem estômago para aquele troço). Por quê não receber um e-mail, estilo corrente e com a ameaça veemente de que se você não compartilhar a imagem do E.T. para 10 amigos dentro de 15 minutos, 150 raios laser cairão dos céus na sua cabeça?

Temos a tendência a nos apegar a estes números e à qualidade que eles trazem para nossas vidas como se fossem a coisa mais importante do mundo. Todos se interessam pelo que eu escrevo, veja, 5 já curtiram a nova imagem antiga que compartilhei. O blog, falem bem ou mal, é uma ferramenta para tornar mais estático o volátil e merda, eu gostei da piada do E.T. - não podia deixá-la morrer no mar de informações e estatística do Facebook.

Vamos lá gente, estou aguardando ofertas. 8 seguidores, quem dá mais?

12.2.12

Chegou a hora da verdade para o blog

Então, agora eu realmente não sei o que fazer. Só percebi recentemente que o Google Friend Connect será desativado em 1º de Março e pra variar, a notícia já é antiga.

A opção apresentada pela Google é ridícula: criar uma página no Google Plus. Cacete, isto aqui é um blog pessoal, não é uma empresa. Eles realmente querem que eu pare de escrever aqui e passe a colocar minhas atualizações apenas no facebook? Que idéia estúpida, pois funciona apenas para quem tem websites de negócios, notícias, variedades. Eu sou uma pessoa que escreve num blog, nada além disso.

Por exemplo, eu tenho uma página no Google Plus. A minha página. A idéia deles é que eu criasse uma página do "Blog do Bart Rabelo" e gerenciasse isso no G+ pra manter contato com a "minha comunidade". Não vai acontecer. Eu até criei a página e coloquei aqui do lado o botão conforme as instruções deles, apenas para ver o quão inútil e estúpido isso é.

Até o fim do mês ninguém sabe direito o que vai acontecer. Estou pedindo às pessoas que seguem meu blog para se inscreverem novamente usando a nova área de seguidores (na barra da direita), pois esta "TALVEZ" não seja removida/cancelada pela Google. Só posso trabalhar em cima de presunções.

O que vai acontecer agora, é que uma das poucas ferramentas para interatividade entre bloggers, morrerá. E com isso, cada vez mais, os blogs pessoais também. Eu tenho apenas 50 seguidores, outras pessoas tem milhares. Tirem suas próprias conclusões.

7.2.12

Virtude e Consciência

Eu gostaria de deixar algumas coisas bem claras.

A primeira é que sou apartidário. Não acredito em partidos, especialmente no atual sistema político do nosso país. Acho que é uma mentalidade burra e uma prática estúpida acatar tudo o que um partido representa simplesmente por querer fazer parte dele. Isto leva à intriga, manobras escusas e jogo de interesses. Por isso sou apartidário.

Outra coisa interessante: sou centrista. Não daqueles, como o PMDB, que mudam suas alianças conforme a dança das cadeiras vai sendo feita, eu sou centrista e ponto final. Concordo com muitas das idéias defendidas pela esquerda, com outro tanto de idéias defendidas pela direita. Não preciso abaixar a cabeça para tudo, nem bater de frente com todos.

Eu pratico aquilo que prego e prego aquilo que sou. Defendo o direito dos empreendedores de realizarem seus negócios sem uma carga tributária absurda, assim como o dos trabalhadores de receberem bons benefícios em troca da sua mão-de-obra. Acho que o socialista deveria pensar mais como um capitalista e que o capitalista deveria pensar mais como um socialista.

É por isso que venho falando tanto sobre Pinheirinho nos últimos dias. Muitos tem fechado os olhos para a situação das pessoas despossuídas por preconceitos políticos e sociais. Por outro lado tenho visto muitos comentários na internet relacionados a Pinheirinho envolvendo palavras como "anarquia", "socialismo", "direita", "esquerda", "reacionário", "ditadura", "sindicalista".

Você não precisa se enquadrar em nenhuma das categorias acima para se revoltar com a situação atual da Síria ou do Egito, para se enojar com o apedrejamento de mulheres em praça pública na Nigéria, para querer acabar com a corrupção da política no Brasil. Ou para ser contra o que aconteceu em Pinheirinho. Tudo o que você precisa é tentar se tornar um ser humano melhor, aplicar ao seu cotidiano virtudes permitam que você faça o melhor possível, dentro das suas limitações.

Muitas vezes, a verdade tem um preço. O caso do foto-jornalista Kevin Carter, que sofrendo de depressão se matou em 1994, é bastante conhecido. O seu suicídio ocorreu poucos meses após ele ganhar um Prêmio Pulitzer, mas o homem simplesmente não foi forte o suficiente para lidar com as memórias das guerras, das matanças, das coisas erradas que presenciou, impotente. Ele tinha a minha idade, 33 anos, quando se matou.

Ter virtude e lidar com sua consciência é difícil, exige uma força que poucos tem. Pessoas como eu, afastadas dos confrontos diretos e do sofrimento dos oprimidos, não precisam ser tão fortes. Pessoas como eu e talvez... Como você?