28.3.11

Mais um relato de violência urbana

Uma pequena pausa antes de começar a nova fase do meu blog, como comentei no post anterior (ainda estou trabalhando no material). Ao contrário da programação normal, o relato abaixo é de um amigo que pediu que a sua opinião fosse divulgada aqui. Como acho que é pertinente, aqui está. Mostra bem a banalidade. Não aconteceu nada de grave com o meu amigo e sua esposa, mas poderia ter acontecido e com muita frequência a situação abaixo descrita normalmente é mais rápida, violenta e com final triste. Muito mais triste. No fim das contas é uma questão de estatística: um grande número de pequenos crimes levam as pessoas a cometerem crimes mais graves e assim por diante. Um dia, quem sabe, todos os ladrões de galinhas deste país não possam se reunir em Brasília para confraternizar?

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É muito triste constatar o declínio de uma cidade, Niterói, que já foi a "Cidade Sorriso", a cidade com a quarta melhor qualidade de vida do país, hoje ostenta uma decrepitude mórbida pontuada pela violência e descaso.

Hoje pela segunda vez sofri uma tentativa de assalto enquanto passeava com minha esposa pelo calçadão da praia de Icaraí, um dos IPTUs mais caros de todo país, paramos em um dos cartões postais da cidade, a pedra de Itapuca, onde olhamos o mar com frequência, muito embora a água seja muito suja mesmo com mais de 15 anos de investimento em sua limpeza, e fomos abordados por um casal jovem, a menina, muito magra e pequena o homem magro e tentando firmemente impor o medo.

Sou um homem razoavelmente alto e felizmente com uma certa dose de sangue frio,  minha esposa muito embora seja pequena é bem calma. Fomos abordados de frente com os dizeres “não reage”, que sinto dizer, tive que pedir para o rapaz repetir, pois realmente não entendi, eles se aproximaram e a menina se colocou a minha direita, fora do meu campo de visão e começou a abordar minha esposa, o homem alegou estar armado e pousou a mão na cintura sobre a camisa, em uma tentativa de reforçar suas palavras, não pude ver com muita clareza mas supus que ele não estava armado, disse para ele que ele não estava armado e ele fez o mesmo gesto só que dessa vez foi mais incisivo e menos pensado, minha esposa falou para a mulher largar a bolsa e eu me voltei, minha esposa e a mulher lutavam pela bolsa enquanto a mulher praguejava e dizia para o homem atirar na gente com a pretensa arma, segurei a mulher pelo pescoço e apertei, minha mão conseguia envolver boa parte do pescoço e a mulher largou a bolsa e saiu de perto, me voltei para o homem q estava vindo em minha direção, ouvimos uma moto parar na curva e todos 4 reparamos que o motoqueiro nos olhava.

O casal meio que foi saindo pelo lado olhando o motoqueiro, eu e minha esposa não sabíamos se o motoqueiro estava com eles ou não fomos andando rápido na outra direção tentando nos distanciar o mais rápido possível, reparei q o motoqueiro estava olhando para gente mas ainda com a atenção sobre o casal, agora olhando bem reparei que ele era provavelmente um entregador pois moto tinha um bagageiro, falei para ele chamar a policia ele disse que tentaria procurar na cabine policial a menos de 100 metros que esta vazia a mais de dois meses muito embora sempre esteja com as luzes internas ligadas.

Liguei do celular para 190, onde fiquei ouvindo musica por mais ou menos 1 minuto ainda andando meio que correndo para longe, quando atenderam procedi com a queixa e a descrição do casal, passamos na frente da cabina policial e não havia ninguém como esperado, a atendente  no outro lado da linha me informou que o batalhão local havia sido informado e me perguntou onde achava a que eles estariam, por se tratar de uma rua sem cruzamentos indo desembocar na rua Miguel de Frias ou continuar na praia, disse que eles deveriam estar se dirigindo para a Miguel de frias, saída mais rápida daquela região.

A adrenalina começou a baixar, e o sentimento de impotência e desgosto aflorou, pensamos no que poderíamos ter feito, em como poderíamos ter nos defendido, o cara era menor que eu e além disso eu estava segurando dois livros grandes e pesados, a menina eu poderia ter machucado bastante se não tivesse largado o pescoço quando ela foi para trás.

Pensamos então na certeza total que eles tinham, da impunidade e do estado de medo que a sociedade vive, tentaram nos assaltar apenas no “grito”, sabendo que quase certamente iríamos dar nossos objetos apenas pelo medo já enraizado no coração da classe media quando sai de suas prisões particulares a que chamam de “condomínios”, vivemos em estado de sitio, preparados para dar nossos pertences a primeira pessoa que gritar mais alto.

Enterrados em uma cultura que idolatra o banditismo, cujos filhos dos membros de suas elites vão a bailes nas favelas e elevam o funk à categoria de musica, nos perdemos, o homem culto hoje venera o pobre como cultural e como o real brasileiro em suas casas com guaritas enquanto se entorpecem com a violência embelezada proporcionada por uma mídia corrupta e sensacionalista.

Quase fui assaltado duas vezes, em duas semanas consecutivas, exatamente no mesmo local e horário, em frente a apartamentos que valem mais de um milhão de reais cada, em uma rua cujos condomínios giram em torno de 700 a 1500 reais por mês, o IPTU de 100 a 150 reais, e no entanto temos duas cabines de policia vazias, não vejo um carro de policia fazendo uma ronda depois das 23:00 há meses.

O advento das UPPs ao invés de terminar com a criminalidade apenas a movimenta e empurra, Niterói nunca foi tão violenta, morros são invadidos por facções rivais, pessoas são executadas em frente à faculdade de direito, mas aplaudimos a nova UPP do alemão, vemos mais de 300 homens armados, fugindo para uma outra favela, mas damos vivas e dizemos q triunfamos quando 10 são pegos e os outros fogem ajudados pela mesma policia que deveria prende-los.

Pela primeira vez na minha vida quero realmente ir embora, estou de saco cheio do Brasil, da porra da Globo, do caralho funk, das crianças que ouvem musica com os celulares nos ônibus sem a merda do fone, dos entregadores que falam obscenidades para as meninas que passam na rua, dos traficantes que mandam em porções das cidades, dos policiais que vão achacar as pessoas para ganhar o “cafezinho da noite” em fim quero que o Brasil se foda.

Luto todo dia pra fazer um mundo melhor para todo mundo, para melhorar a vida das pessoas, de todas as pessoas, mas estou cansando, serio, não da para tentar melhorar vendo as pessoas que detém o poder nesse país, os advogados são ridículos, mais interessados no próprio bolso que em qualquer outra coisa, os políticos corruptos e estúpidos, fazendo do planalto um circo, a mídia dança e bate palmas extraindo migalhas do povo relegado à ignorância para que seja mais fácil guiá-lo.

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15.3.11

O quê devo fazer com esta porcaria de blog inútil?

Estava eu no meu canto, lendo o twitter nas Barcas, quando novamente vejo pessoas defendendo a legalização do uso da maconha no Brasil. Precisamente, foi um perfil no orkut, escrito por uma pessoa até muito eloquente e educada, mas ela basicamente só sabia reclamar, apontar dedos. Em momento algum a defesa desta criatura mencionava ações construtivas para a liberação da droga no país, citava estudos clínicos, nada. Apenas a mesma ladainha de sempre - o cara que acha que tem razão, esperneando desnecessariamente na internet.

Já fiz isso aqui no meu blog. Muito. Hoje me vigio para não mais fazê-lo. Por coincidência, também hoje de manhã, logo antes de ler o twitter do maconheiro lacrimoso, pensava nas coisas que escrevo ou deixo de escrever. Uma página na internet é algo que deveria ter um objetivo, pelo menos foi assim que eu aprendi como as coisas funcionam. Blogs e redes sociais são perigosos por simplesmente permitirem que qualquer um, através da inclusão digital, compartilhem suas vidas, diários secretos e opiniões com o mundo. Que bela democracia... E que bela hipocrisia.

Então, qual seria o objetivo do meu blog? Pensei em ser "cool" e dizer que sou como o Jerry Seinfeld, que escrevo sobre o nada. Mas na verdade percebi que nem o Seinfeld fazia isso, o seriado dele era sobre cotidiano, era uma stand-up comedy encenada, logo larguei essa idéia megalomaníaca de lado imediatamente. Não escrevo mais crônicas e estas sempre foram inconsistentes e irregulares em ritmo, conteúdo e estilo. Piadas? Não, eu não consigo entender o senso de humor brasileiro, não adianta. Às vezes escrevo algo que acho hilário, mas o número de acessos no blog é ridiculamente baixo e sem comentários. Então escrevo uma baboseira qualquer e causo frisson na internet.

Percebi que não adiantam esparsos lampejos de criatividade, ela deve ser uma constante consistente. Presença através de postagens constantes também são importantes, para manter leitores atentos e ávidos por notícias. Mas continuo com o problema do conteúdo. Entretanto ainda persiste o problema do conteúdo. Se eu não devo escrever sobre o meu cotidiano e sobre a minha vida para evitar a choradeira desnecessária e a exposição pessoal, qual seria meu tema?

Neste momento olhei para trás e descobri a resposta. Eu sou meu próprio personagem, o verdadeiro misturado com uma análise em terceira pessoa. Tive uma adolescência miserável frequentando uma escola nojenta, cheia de filhinhos-de-papai e ao mesmo tempo sendo um "nerd padrão." Não seria isto suficiente? Claro, olhando para aquela época, era uma merda. Mas agora consigo lembrar de tudo com uma visão bem melhor, mais apurada, mais neutra. Até cômica.

Então, em breve, vida nova no blog.