14.6.10

O cinema da vida real

Sim, eu sei que algumas pessoas estão esperando notícias completas sobre a viagem. Como foi algo mais a trabalho e as únicas horas que tive disponíveis para conhecer a cidade eram as noturnas, decidi escrever um roteiro dos pubs e cervejas que conheci. Mas não é sobre isso que falo hoje e sim sobre uma das experiências mais surreais da minha vida, que até o momento apenas compartilhei com a Clara.

Sexta-feira fui no pub The Porterhouse da Maiden Lane em Covent Garden com a Wendy (uma amiga daqui que está morando lá), beber as excelentes cervejas feitas pela casa e torcer contra a França (é, tipo isso sim, eu guardo mágoas pelo que aconteceu com os irlandeses). Após o jogo andei com a Wendy até perto da casa dela, entrei no metrô e peguei a linha até a Victoria Station, onde fiz transferência para a linha Circle, que me deixaria na estação de High Street Kensington, a mais próxima do hotel.

Já era perto da meia noite. Estava sentado no trem, cansado e querendo uma cama quentinha, já que o dia seguinte seria passado dentro de aviões. Entram no meu vagão três homens com tipo europeu, alegres e comemorando algo junto uma garota meio asiática de origem completamente indistinta. Dentre eles, dois eram uns brutamontes enormes, do tipo com o qual você não quer arrumar briga num estádio de futebol.

Ate aí tudo bem, mas a garota começa a tirar sapatos da bolsa dela e entregar para os homens, que trocam os calçados imediatamente. Então eles viram suas camisas e suéters pelo avesso, para revelar roupas de cores completamente diferentes e as vestem por dentro das calças. De um estilo completamente informal, de repente estão todos vestidos como se estivessem indo para uma festa.

Os quatro comemoram alguma coisa, celebram, estão felizes e com a adrenalina a 100%. O mais baixo dos três homens, que parece ser o líder do grupo, dando ordens a torto e a direito, beixa a garota e fala algo com ela. Eles começam a conversar entre si e infelizmente eu presto atenção em algumas das palavras. "Da... Nyet..."

"Caralho" eu pensei. "Eles são russos, fodeu. Fodeu, fodeu, fodeu" era tudo o que eu conseguia pensar. Para quem não sabe, a Inglaterra, em particular a região de Londres, tem um sério problema com a máfia russa. Saquei que não podia deixar que eles percebessem que eu entendi quem eles eram. Ou o que eles provavelmente tinham feito. Comecei a olhar para um ponto fixo com régia determinação.

Passou a estação de Gloucester Road. Em seguida alguns dos minutos mais longos da minha vida e cheguei a High Street Kensington, a minha estação. Me levanto sem olhar para eles mas percebo que saltam atrás de mim. Ando em direção à única saída da estação e penso em procurar um segurança para avisar que algo estranho estava acontecendo, mas antes olho para trás - ninguém havia me seguido. Olho para todos os lados e não acho nenhum segurança ou guarda (talvez eles confiem demais no sistema de câmeras).

Em seguida foram 10 minutos de caminhada desabalada em direção ao hotel. Vi três viaturas correndo velozmente pelas ruas, mas o que poderia fazer? Mesmo se tivesse conseguido parar uma das viaturas, provavelmente perderia toda a minha noite fazendo um boletim de ocorrência ou algo do tipo, perderia meu vôo e talvez arrumasse uma bela enrascada no futuro.

Então fui pro hotel, terminei de arrumar minha mala e dormi. Provavelmente nunca saberei se eles realmente eram mafiosos russos fugindo de uma cena de crime, mas com certeza certas cenas do cinema, ao vivo, não são tão legais assim.

Um comentário:

Pablo disse...

TENSO!
huahuauhauhauhhua