27.6.10

Nerds


Nesta época de Copa do Mundo é muito comum começar a ouvir as pessoas reclamando. De tudo. Não digo que eu não goste de futebol, da bagunça de cores e nações que um evento desta magnitude abriga. Eu adoro futebol, sempre gostei do esporte - porém existe uma diferença abissal entre gostar de algo e ser bom naquilo.

Tá, quem me conhece sabe que sou nerd. Curto Star Wars desde criança, jogo RPG com frequência há mais de dezesseis anos, ouço músicas consideradas anti-convencionais para a maioria das pessoas. Entretanto sempre tive uma vida socialmente bastante ativa, da qual sempre gostei muito.

Tudo bem que eu tive uma adolescência marcada por constantes conflitos na escola, que era composta por 95,00% de gente completamente babaca e escrota (a estatística é bastante precisa, pois dentre os 400 alunos da minha série, apenas salvavam-se cerca de 20). Aliás, esta maioria avassaladora que estudou comigo continua do mesmo jeito hoje em dia - medíocre e desprovida de visão.

Não digo que eu não seja medíocre ou míope, mas pelo menos tento não ser. Jogo RPG aos Domingos, vejo jogos de futebol e me empolgo com eles, bebo cerveja com meus amigos, ouço metal, faço pizza em casa porque acho mais legal do que comer na rua, coloco minhas idéias no "papel", não me envergonho do fato de que meu gosto musical está regredindo cada vez mais para os anos 60, toco numa banda de rock e tenho uma linda esposa que me apóia e me acompanha nestas empreitadas e quaisquer outras maluquices da vida.

O "desmotivador" acima tem toda a razão. Nós, nerds, às vezes acertamos sim.

22.6.10

Nem Morto (mais uma vez!)


Estou postando mais uma vez sobre o Nem Morto aqui. Para quem perdeu, é uma tirinha que há mais de 8 anos atrás eu comecei a escrever para o Leo Finocchi desenhar, mas o projeto se perdeu no tempo e agora o Leo decidiu desenterrá-lo. A princípio ele ia escrever ou modificar todo o material, mas o que tem saído é uma mescla bastante forte do material novo dele com as piadas antigas que eu escrevi. Então peço humildemente, confiram o site, prestigiem a arte do Leo e se possível ajudem a divulgar (isso, claro, quem gostar de piadas de zumbis ou humor bizarro em geral).

E se eu consigo pensar como o Leo Finocchi (tirando o fato que eu sou "normal" e ele parece com um wookie), asseguro que a melhor parte ainda nem chegou.

Clique aqui para ser redirecionado para a página do Nem Morto.

20.6.10

Adieu Les Bleus

O técnico da França, Raymond Domenech, disse ontem sobre o afastamento do atacante Anelka do time, após uma briga com o próprio: "Sinto muito pelas crianças para as quais o time Francês representa algo."

Então quer dizer que eles TEM o direito de se classificar para a Copa do Mundo com um gol ilegal e jogo sujo?

Isto é o que o atual time Francês representa para as crianças. Espero que a França retorne para casa coberta de vergonha e sob vaias.

14.6.10

O cinema da vida real

Sim, eu sei que algumas pessoas estão esperando notícias completas sobre a viagem. Como foi algo mais a trabalho e as únicas horas que tive disponíveis para conhecer a cidade eram as noturnas, decidi escrever um roteiro dos pubs e cervejas que conheci. Mas não é sobre isso que falo hoje e sim sobre uma das experiências mais surreais da minha vida, que até o momento apenas compartilhei com a Clara.

Sexta-feira fui no pub The Porterhouse da Maiden Lane em Covent Garden com a Wendy (uma amiga daqui que está morando lá), beber as excelentes cervejas feitas pela casa e torcer contra a França (é, tipo isso sim, eu guardo mágoas pelo que aconteceu com os irlandeses). Após o jogo andei com a Wendy até perto da casa dela, entrei no metrô e peguei a linha até a Victoria Station, onde fiz transferência para a linha Circle, que me deixaria na estação de High Street Kensington, a mais próxima do hotel.

Já era perto da meia noite. Estava sentado no trem, cansado e querendo uma cama quentinha, já que o dia seguinte seria passado dentro de aviões. Entram no meu vagão três homens com tipo europeu, alegres e comemorando algo junto uma garota meio asiática de origem completamente indistinta. Dentre eles, dois eram uns brutamontes enormes, do tipo com o qual você não quer arrumar briga num estádio de futebol.

Ate aí tudo bem, mas a garota começa a tirar sapatos da bolsa dela e entregar para os homens, que trocam os calçados imediatamente. Então eles viram suas camisas e suéters pelo avesso, para revelar roupas de cores completamente diferentes e as vestem por dentro das calças. De um estilo completamente informal, de repente estão todos vestidos como se estivessem indo para uma festa.

Os quatro comemoram alguma coisa, celebram, estão felizes e com a adrenalina a 100%. O mais baixo dos três homens, que parece ser o líder do grupo, dando ordens a torto e a direito, beixa a garota e fala algo com ela. Eles começam a conversar entre si e infelizmente eu presto atenção em algumas das palavras. "Da... Nyet..."

"Caralho" eu pensei. "Eles são russos, fodeu. Fodeu, fodeu, fodeu" era tudo o que eu conseguia pensar. Para quem não sabe, a Inglaterra, em particular a região de Londres, tem um sério problema com a máfia russa. Saquei que não podia deixar que eles percebessem que eu entendi quem eles eram. Ou o que eles provavelmente tinham feito. Comecei a olhar para um ponto fixo com régia determinação.

Passou a estação de Gloucester Road. Em seguida alguns dos minutos mais longos da minha vida e cheguei a High Street Kensington, a minha estação. Me levanto sem olhar para eles mas percebo que saltam atrás de mim. Ando em direção à única saída da estação e penso em procurar um segurança para avisar que algo estranho estava acontecendo, mas antes olho para trás - ninguém havia me seguido. Olho para todos os lados e não acho nenhum segurança ou guarda (talvez eles confiem demais no sistema de câmeras).

Em seguida foram 10 minutos de caminhada desabalada em direção ao hotel. Vi três viaturas correndo velozmente pelas ruas, mas o que poderia fazer? Mesmo se tivesse conseguido parar uma das viaturas, provavelmente perderia toda a minha noite fazendo um boletim de ocorrência ou algo do tipo, perderia meu vôo e talvez arrumasse uma bela enrascada no futuro.

Então fui pro hotel, terminei de arrumar minha mala e dormi. Provavelmente nunca saberei se eles realmente eram mafiosos russos fugindo de uma cena de crime, mas com certeza certas cenas do cinema, ao vivo, não são tão legais assim.

5.6.10

Por favor deixe sua mensagem após o sinal

Ficarei fora por alguns dias, postagens no blog provavelmente serão raras porque a Wi-Fi do hotel é apenas no lobby principal. Tweets também devem ser esporádicos porque a Oi não quis me informar as tarifas para utilização de 3G na Inglaterra.

Enquanto estou fora, visitem o site da candidatura do Grande Cthulhu à presidência do Brasil, clicando aqui. Deixem suas perguntas para o Todo-Tentaculoso nos comentários do site que elas serão devidamente respondidas pelo Grande Antigo que descansa morto em R'Lyeh, aguardando o dia no qual devorará toda a humanidade, espalhando destruição, morte, insanidade e uma nova política de ensino público onde os professores serão mais valorizados (os alunos serão devorados primeiro e os mestres depois).

3.6.10

O Estorvo

Estava pensando agora, tenho um texto que nunca foi publicado aqui e pelo qual sinto grande afeição. "O Estorvo" foi escrito lá nos meados de 2001 e foi publicado em 2003, após ficar em terceiro lugar no 1º Concurso Municipal de Conto da Prefeitura de Niterói. Segue abaixo, caso interesse a alguém:


O Estorvo
3º colocado no I Concurso Municipal de Conto (categoria Adulto)
Prêmio Prefeitura de Niterói/ UNIPLI
publicado na coletânea “I Concurso Municipal de Conto”, Niterói Livros, 2003


Ao completar quarenta anos, ele se levantou da cama pronto para mais um dia. Foi ao banheiro, tomou um banho rápido e barbeou-se grosseiramente, ganhando uma pequena cicatriz no rosto já marcado pelos anos. Vestiu seu melhor terno e, como de costume, comeu apenas duas torradas de café-da-manhã. Bebeu rapidamente uma xícara de café feito no dia anterior, pegou sua maleta e saiu de casa, ignorando o jornal deixado sob o batente da porta pelo entregador.

O primeiro grande desafio do seu dia-a-dia era entrar no elevador e apertar o pequeno botão com a letra "p". A partir desse momento, ele já não teria mais coragem de voltar para casa e esconder-se do resto do mundo, que seria um lugar perigoso, em sua opinião. Cheio de criaturas indiferentes à sua existência. Não havia uma pessoa que se importasse com ele. Os pais, que eram os únicos parentes, haviam morrido há quase dez anos, de "velhice" mesmo. Ele nunca se casou. Não por desacreditar do amor, mas por achar que mulher alguma seria capaz de amá-lo. Amigos, jamais os teve, pois acreditava que estes seriam rápidos a se tornarem seus inimigos.

Após passar pelo porteiro do prédio com o habitual "bom dia", se dirigiu à estação do metrô, que era convenientemente perto dali. Desdeu a escada rolante e logo já estava à beira dos trilhos, esperando de pé a sua condução diária para o trabalho. E enquanto olhava para os trilhos eletrificados, crescia dentro dele a idéia de se jogar neles, terminando assim a sua miserável vida. Ninguém sentiria sua falta, ninguém. Seria uma morte rápida, indolor talvez.

Deu um passo à frente e se inclinou, quando veio à sua mente o pensamento de que se ele se matasse logo ali, eletrificado e transformado em carvão, a estação de metrô seria interditada pela polícia até que o rabecão viesse buscar seu corpo. Isso atrasaria muita gente, que não conseguiria chegar no trabalho na hora. Não, morrer desse jeito atrapalharia a vida de muita gente, ele não tinha o direito de fazer isso, seria um incômodo muito grande.

Entrou no trem e sentou-se. Quatro estações depois, chegou ao seu destino. Em poucos instantes, já se via andando nas ruas do centro da cidade. Ele odiava ter que olhar todos os dias aquela enorme massa de gente indo e vindo, como um monte de formigas. Parou no sinal de trânsito, esperando a luzinha verde aparecer para atravessar a movimentada avenida. Logo percebeu a impressionante velocidade com a qual os ônibus passavam à sua frente, desabalados em seus rígidos horários. Talvez se ele se jogasse ali... Não, não. Isso não seria justo com os passageiros ou com o motorista do ônibus. E se alguma criança estivesse lá dentro? Haveria problemas para todos, isso não seria adequado.

Chegou à portaria do prédio onde funcionava a sua empresa. Era uma dessas grandes multinacionais que contratam milhares de pessoas pelo país afora, e ele era apenas mais um número para a gigante onde trabalhava. Mostrou seu crachá para o parrudo segurança e logo chegou a mais um elevador; só que desta vez, ele apenas dizia um desanimado "vigésimo" e um ascensorista de idade avançada apertava o botão onde se lia “vinte”. Ao sair, se deparou com o "Setor de Contabilidade" escrito numa placa. Ela indicava que ele estava no lugar certo, e ao mesmo tempo no lugar errado, afinal de contas ele preferia estar em casa se escondendo.

Após passar por duas recepcionistas e três mesas de secretárias, chegou ao seu escritório. Bem, talvez esta seja uma palavra forte demais para algo que se parecia com uma saleta de almoxarifado. Destrancou-a e entrou, esquivando-se das caixas cheias de papéis inúteis. Sentou-se em sua cadeira, colocou a pesada maleta na mesa e suspirou. Enquanto olhava à sua volta, pensou no quão deprimente era o lugar onde ele passava seus dias, envolto em números e contas. Virou a cadeira e puxando um cordão abriu a persiana que escondia uma janela suja. Lá embaixo, podia ver tudo aquilo com o qual tinha se deparado no caminho para o trabalho: a estação do metrô, as formigas andando, os ônibus, as ruas de escaldante concreto.

Pensou então em se jogar da janela. Sim, seria rápido e indolor. Ele tinha lido em algum lugar que os suicidas que pulam de prédios muito altos desmaiam durante a queda, desfalecendo antes de se espatifarem no chão. Isso logo o levou a pensar o porquê dos paraquedistas não terem o mesmo final trágico toda vez que pulam de um avião. Concluiu que eles, tendo treinamento especial, não desmaiam. Abriu a janela e, decidido, olhou para baixo. Ao ver as pessoas andando na calçada, recuou e fechou novamente a janela. Lembrou-se de que sua queda poderia acidentalmente matar uma pessoa. Ele não gostou nem um pouco da idéia de tirar a vida de um inocente, sem contar o estrago que seu corpo faria na calçada.

Novamente sentou na cadeira e voltou-se para a mesa cheia de papéis. Era um funcionário apenas mediano, não se destacava nem atrapalhava o serviço. Cumpria prazos e acatava ordens. Essa era sua vida, um ponto sem interrogação nem exclamação. Foi então que tomado por incomum determinação, abriu sua maleta e sacou de dentro dela uma caixa de madeira. Com muito cuidado, retirou a tampa e lá dentro estava a arma de seu falecido pai, que era militar.

Não entendia muito de assuntos bélicos, mas sabia fazer a manutenção do Colt calibre 45, que era o tesouro do pai. O revólver foi presentar de um amigo norte-americano, falecido também há anos. Cautelosamente colocou as seis balas na arma, fechou-a e engatilhou-a. Agora sim. Um tiro na cabeça seria um final muito adequado à sua existência de importância irrelevante. Estava totalmente livre de quaisquer amarras ou dilemas morais. Talvez o seu suicídio desse algum problema à faxineira da empresa, mas não seria nada que um pano com desinfetante não pudesse resolver.

Quando já apoiava o cano do revólver contra a testa, ouviu o som rangido da maçaneta da porta sendo aberta. Com um movimento rápido, escondeu a arma debaixo da mesa e longe dos olhos de quem entrasse. Logo apareceu a figura do diretor de contabilidade, que jogando uma pasta cheia de papéis com número na mesa disse: "Eu preciso desses balanços para hoje, Moreira."

Para hoje. Ainda hoje. Sim, ele teria que terminar o balanços, não poderia se matar hoje. Talvez amanhã, mas se ele se matasse hoje seria um estorvo.