13.3.09

Crônica Aleatória: "Quaresma e Santinha"

Quaresma chegou em casa desesperado, esbaforido. Não acreditava no que acabara de acontecer e certamente não poderia prever e reação de sua esposa quando ele cuspisse em tórridas palavras a verdade que demorou a admitir para si mesmo. Santinha foi esposa fiel, mãe perfeita e agora embebia seu coração na doçura dos netinhos, dois meninos de três e quatro anos respectivamente. Não seria justo com ela, não seria justo com ninguém. Mas agora o sentimento que ardia dentro de seu corpo pedia mais e cada vez mais.

Por trinta e cinco anos Quaresma foi também um marido exemplar, um homem de princípios e que jamais traíra a esposa, nem nas longas viagens que fizera antes de se aposentar do serviço. Colocou um disco na vitrola antiga e se sentou na poltrona de leitura. "Johann Sebastian Bach... Concertos de Brandenburgo", pensou ele. "Essa música vai me ajudar a relaxar". Mas mal havia acabado a execução dos primeiros andamentos do Concerto em Fá maior, ouviu os passos de sua Santinha entrando na sala de estar, silenciosos e suavemente amortecidos por um par de pantufas costurado à mão.

- Meu velho... Chegou em casa cedo? Não teve xadrez na praça hoje?
- Santinha... Sim... Quero dizer, não...
- Você está meio estranho... Aconteceu alguma coisa?
- Sim... E não. Minha velha, é melhor você se sentar aqui do meu lado.
- Benzinho, o que está acontecendo? É sério, quem foi que morreu agora?
- Não Santinha, ninguém morreu. Ainda. Não ninguém morreu. É algo mais grave.
- Estão desembuche logo meu velho! Não me deixe apreensiva, senão minha pressão vai pras alturas...
- Eu tenho algo muito grave para lhe contar. Nem sei por onde começar.
- Comece do início! Você sabe o que dizia o Jor...
- Descobri que sou gay.
- O quê? Que história é essa, Apolônio Quaresma?
- Ora, descobri que sou gay, homossexual. Me sinto atraído por homens.
- Se isto é uma piada, não é das mais engraçadas Apolônio.
- Mas não é piada. Quisera eu que fosse!
- Apolônio... Nós passamos trinta e cinco anos casados para você descobrir, agora, que é fruta?
- Pois é... Aconteceu.
- Mas eu não vou admitir esta sem-vergonhice! Você não me respeita?
- Respeito sim velha. Respeito muito, por isso você é a primeira a saber.
- E por acaso posso saber como você chegou à conclusão, com sessenta anos de idade, de que joga do outro lado da cerca?
- Eu estava jogando xadrez na praça com meus camaradas... E foi estranho, pois durante horas, naquele ambiente cheio de homens... Bem, eu... Ehr...
- Você o quê? Fala, homem!
- Eu... Ehr... Mantive uma ereção.
- Ereção? Jogando xadrez?
- Isso não é normal. Eu tive uma longa ereção jogando xadrez com meus amigos. Meu Deus, vou parar no inferno. Além de descobrir que sou boiola, ainda cedo à luxúria e cobiço os corpos dos meus companheiros de prosa...
- Quaresma... Você tomou seu remédio para memória hoje?
- Tomei, todas as três vezes que o médico receitou.
- E você por acaso lembra qual é o pote do seu remédio?
- Claro, é o potinho branco.
- Errado. É o vermelho.
- Ah, é mesmo? E qual é o remédio do potinho branco?
- Viagra. Seu velho burro.

Escrito por Bart Rabelo | 0 comentários(s)


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