22.8.05

Crônica Aleatória: "Praia"

Sabe aqueles dias nos quais você acorda com vontade que já fosse amanhã? Pois seja bem vindo à vida de Miguel. Da rotina às surpresas desagradáveis, nada mais era capaz de instigar o homem de meia-idade, farto de sua vida insossa e sem animosidades. A família era perfeita, apesar de distante. Não falava com os filhos há meses - os dois desnaturados foram estudar na Europa e nunca davam notícias. Com a esposa era pior. Apesar de dividirem o mesmo teto, ela era incapaz de pronunciar uma palavra de alento ao cansado homem, toda vez que chegava em casa. Preferia voltar-se às suas coisas pequenas, em seu minúsculo mundinho de vidro e porcelana pintada.

Pois estava Miguel de pé, esperando pelo metrô, como sempre fazia há anos. Vendo as mesmas pessoas, com pequenas nuances na multidão - um ou outro jovem universitário, algum idoso que nunca mais aparecia. Tinha memória visual fenomenal, o que permitia-lhe jamais esquecer o rosto de alguém. E um em particular agora chamava sua atenção: era uma atriz, muito bonita, e que provavelmente deveria estar fazendo sucesso em alguma novela que lhe era completamente desconhecida. Ela sorria sentada numa rede, banhando-se com o sol do Caribe. Abaixo, a convidativa frase: "Venha conhecer as maravilhas do Caribe".

É isso. Esse era o sinal. Decidiu sair dali, desabaladamente, para a primeira agência de viagens que pudesse encontrar. "Quebrar a rotina é bom", ele pensou. "Todos ficarão surpresos", emendou quando já podia sentir os cancerígenos raios de sol queimando sua pele seca e opaca. Sentado na praia, bebendo os drinks mais refinados e comendo os melhores manjares de todo o planeta. E daí que a esposa nunca mais o aceitaria de volta? Os filhos ficariam sem dinheiro para completar os estudos na Europa? Nada disso importava.

O importante, agora, era sentir a brisa do mar brincando com seus poucos fios de cabelo; a água do mar se deliciando em lavar os dedos, cansados após muitos anos de labuta incessante e sem sentido algum! Queria assimilar todos os elementos da natureza lavando seu corpo e alma, esmigalhados após anos de privações e humilhações cotidianas, fazendo com que se sentisse o rei do mundo, mestre de seu destino e dono da preciosa vida que habitava seu corpo!

Deixou seu corpo cair lentamente, ao som do vento cantando nas rochas; das aves gritando ao seu redor. Em poucos instantes, já não seria capaz de escutar mais nada, enquanto na estação do metrô as pessoas observaram horrorizadas os restos de seu corpo espalhados pelos trilhos.

Nenhum comentário: