4.8.05

Crônica Aleatória: "Fique mais"

Toda vez que ele levantava a cabeça, via uma imensidão azul. E apenas isso. O calor já tinha superado o insuportável e era questão de horas para que desmaiasse e morresse por insolação. Conseguira sobreviver desde o naufrágio às custas de feijões enlatados e um galão de suco de laranja. Com certeza abrir as latas de feijão sem ferramentas apropriadas era difícil, mas alguns pinos de metal encontrados no bote de borracha o ajudaram neste tarefa.

Quando todas as esperanças já haviam abandonado o corpo do jovem náufrago, surgiu no horizonte uma sombra muito indistinta, aos poucos tomando forma, até revelar o impossível: uma ilha. Freneticamente, ele agitou os braços na água, tentando fazer o bote ganhar velocidade, a caminho de sua salvação. Com muito esforço, alcançou a margem, e aos soluços beijou a fina areia branca.

Com o coração embebido de alegria, decidiu puxar o bote junto com os poucos víveres que sobraram para a margem. "Tantas coisas a pensar, tantas coisas a iniciar", pensou distraído, quando uma voz infantil ressoou bem atrás dele: "sejam bem vindo, Daniel!". Aterrorizado, ele se virou para observar a interlocutora. Era uma jovem adolescente, com não mais do que dezesseis anos de idade. Ela se vestia de forma estranha, roupas tão coloridas e fora de tom quanto seu cabelo, que parecia ser pintado conter as mesmas nuances de um arco-íris. Apesar dos lábios ressecados pelo sol, dolorosamente ele disse: "Como você sabe o meu nome?"

A jovem revelou traços mistos de felicidade e estranheza por trás de sua colorida imagem. Ela respondeu com uma voz fina e que parecia oscilar no espaço entre eles: "Ué, VoCê É mEu! Eu SeI o NoMe De ToDoS qUe SãO mEuS!"

"Você está doida, menina?" respondeu Daniel, ainda atordoado pelo som de uma voz humana, que nos últimos dias havia se transformado em algo estranho e reconfortante. Porém agora menina parecia alarmada, gritando: "DOIDO? AoNdE? aI sOcOrRo FoGe!!!"

Ela pegou a mão do pobre desavisado e saiu correndo pela praia em direção à floresta. Daniel tentou resistiu, mas parecia inútil: o toque da mão da garota parecia empurrar seu corpo para a frente, dando-lhe energia para prosseguir, apesar de tudo o que já tinha passado nos últimos dias. Foi quando entraram desabalados pela floresta, que o homem se surpreendeu: via uma miríade de cores fantástica, algo que nunca pensara em ver jamais. As árvores carregavam frutos cor-de-rosa e sua flores emitiam uma luz verde-fluorescente. Os insetos brilhavam vermelhos, à sombra azul das árvores.

Em poucos instantes chegaram a uma clareira, onde convenientemente estava montada uma mesa de rocha com duas cadeiras feitas de troncos de árvores. A luz do sol brilhava cada vez mais lilás, realçando a beleza dos olhos da estranha garota: um verde e o outro azul. "SeNtE-sE, eE SaBiA qUe VoCê EsTaVa ViNdO, eNtÃo PrEpArEi Um PeQuEnO LaNcHiNho. EsPeRo QuE gOsTe De SoRvEtE dE pArAfUsOs!" E por algum motivo estranho, era o manjar mais saboroso que ele havia provado em toda sua vida.

Lá ficaram juntos, durante dois dias e duas noites, admirando a beleza da ilha em todos seus mistérios: todos os pequenos insetos com vinte pares de asas e os macacos gigantes, que vinham brincar e acabavam derrubando as árvores quando se penduravam nos galhos com suas caudas duplas. Ele pensava, e chegou até a dizer para sua amiga: "Eu gostaria de viver assim para sempre, sabe?" Mas quando disse isso, ela se retraiu, e triste disse: "IsSo Se MiNhA iRmà mAiS VeLhA nÃo AtRaPaLhAr...".

Foi logo após o pôr-do-sol que ela apareceu. Estavam os dois caminhando na praia, uma aposta para saber quem ficava mais tempo sem tocar em sequer um grão de areia, quando uma jovem mulher, vestida como um desses loucos góticos e com cabelos tão negros quando a escuridão que estava por vir apareceu. Parecia ter apenas vinte e poucos anos, mas ao mesmo tempo, seu pálido rosto transparecia uma idade tão ancestral quando o símbolo que carregava em seu peito, reluzia um Ankh egípcio.

Ela se aproximou com um amável sorriso no rosto. "Chegou a hora, irmãzinha", disse com uma voz calma e cheia de ternura, apenas para ouvir a resposta imediata: "NÃO, dEiXe eLe CoMiGo MaIs Um PoUcO!"

A bela jovem gótica com o Ankh não se comoveu nem um pouco. "Você sabe que não posso. É hora dele partir." Aos prantos, a misteriosa anfitriã saiu voando com asas invisíveis, até desaparecer no infinito.

Exibindo um amável sorriso no rosto, a soturna figura ergueu as mãos e com um movimento circular limpou a paisagem, revelando o céu limpo e o horizonte vazio. Realidade reconstruída, estavam os dois sozinhos no bote à deriva e Daniel tinha que ir embora.

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